terça-feira, 5 de outubro de 2010

Fenomenologia do tédio

Este é meu novo projeto. Como acaba de ganhar um nome, está pronto para perecer. Tudo se determina na morte e, como na morte se acaba, tal determinação é inútil e fulgaz.

O Tédio é a força-mor, ela rege a inconsciência perversa de nossa sociedade atual. Cabe a nós, fenomenologicamente, alcançar o âmago dessa experiência, compreender sua estrutura originária na constutuição do Ser.

Tudo é devir, entretanto, quando este se acalma, se dobra em relações consigo, fecha-se numa circularidade, atinge um ritmo, um pulso regular, uma reiteração de si... atinge o ponto ideal do que chamamos Ser. Não que uma tal mônada pudesse perseguir ilesa no grande oceano furioso, batendo contra rochas e sendo alvo de agenciamentos que o ultrapassam.

O ser é um tornar a ser, um devir da "seidade". Enquanto tal, ele se estratifica, se territorializa, cria uma estrutura, uma identidade, uma identificação, separa-se das amarras agenciadoras da qual veio, e acaba por ganhar um status pseudo-transcendental.

Entretanto, nesse momento em que atinge a plenitude do Ser, só resta-nos uma única possibilidade de volta. Para os que perdem até esse último retorno da rodovia, sobra-lhes, como os marujos do "holandês voador", transformar-se em paredes, em casco, em barco, enfim, estruturar-se até o nível do inanimado.

Mas alguns vislumbram a última saída do Ser... enquanto último, é sua essência, seu fundamento, sua força-motriz... o tédio.

Poucos alcançam de forma plena essa etapa. Há um árduo trabalho em atingi-la. nem o autista, que oscila seu corpo ritmicamente, sente omomento em que, na identificação do mesmo com o mesmo, há o colapso de partículas iguais que se integram numa força estrondosa, mas, ao contrário da força que, na mesma física, compõe a violência vital de nosso sol, ela é uma força silenciosa, negativa, reativa, implosão que se faz no sonho em que, ao tentarmos fugir, nossas pernas não respondem...

Há uma força negativa, repudiada pelos esquizoanalistas, mas que centripetamente reúne nossa sociedade em um núcleo que ultrapassa até o maior sentimento de insatisfação coletiva.

Há muito ainda para se conseguir descrever o tédio. Freud descobre a neurose como o sintoma-movente do capitalismo industrial, Deleuze aponta a esquizofrenia de nosso capitalismo financeiro, Baudrillard revela a perversão de nosso capitalismo informatizado... o que nos resta de inovação patológica... os indivíduos, as massas, as pedras, os cálices, os estrumes, os cães, os mares, os deuses, o tudo, os vários, os alguns, nada resiste ao movimento e sua lentidão, sua estagnação, seu zero, seu vácuo, seu tédio.

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