sábado, 20 de novembro de 2010

Desejo como excesso do mundo

Merleau-ponty encarna a alma no corpo, e o corpo no mundo sensível. Sou um visível entre outros, mas também vidente deste. Como estou no meio do mundo, o que vejo não é de fora, mas facetário, sob perspectivas imcompossíveis, e com uma profundidade invisível. Por fim, há o horizonte, aquele que se apresenta sob o modo de ausência.

Não que falte algo. O horizonte está ali, no fim de nossa percepção, quase que por detrás dos vales e montanhas que apreciamos à vista. Desde que Colombo experimentou no ocidente a circunferência em que vivemos, corremos ao Oeste como que perseguindo o final de um arco-íris. Sempre presente, mas nunca alcaçado, este é o horizonte. Galeano já dizia que a função deste era não o objetivo da chegada, mas o próprio caminhar. Como uma teleologia sem fim, o Horizonte é o que está presente e eficaz, mas sob o modo de sua ausência.

Entretanto, essa não é uma falta, como numa totalidade em que nos falta uma peça impreenchível. é a totalidade da abertura de um mundo auto-contido, da Terra, um horizonte que está ausente pelo excesso. Nunca alcançamos o horizonte, pois o mundo sempre nos excede. Esse é o Grande Outro Lacaniano, não um oceano de ligações significantes que nos transpassa, mas sim o oceano mesmo, a terra mesma, a atmosfera mesma, o fogo mesmo, a carne de nossos corpos. A grande mistura iminente, a invasão bélica de um no outro, o infinito assintótico jamais determinado matematicamente, o buraco negro que retorce o espaço em um toro que cria o horizonte de nossas possibilidades.

Desejo é ser visível vidente, aberto a um mundo inesgotável, condenado a se expressar a cada gesto, até a morte, quando tornamo-nos apenas um visível, ainda portando alguns privilégios funerários, mais agora totalmente transpassado pelo sensível, somente com uma iminência fantasma de sua anterior atividade.

A pessoa amada não é objeto substitutivo do seio, como em psicanálise. Primeiro, proque o seio não é uma glândula mamária, mas um portador de uma forma de ser no mundo, uma relação com a boca, de incorporação. um sistema, como em Deleuze das máquinas emissoras e cortadoras de fluxo. É um modo geral de ser, um sistema de equivalências.

E a pessoa amada, mesmo que inserida nessa corrente de sentidos perceptivos que tem como nível a primeira relação com o seio, não é um objeto isolado. Ela é uma composição com o meio, como em Proust, onde as mulheres remetem às paisagens e às paisagens remetem às mulheres. o desejo é social, como em Deleuze, pois visa uma generalidade, uma composição, um sistema de coisas, pessoas, paisagens, ou seja, um mundo. Por generalidade última, originária, o primeiro berro do bebê é desejo de mundo.

Não há um prazer e uma frustração vinculados à satisfação ou não de um desejo. O desejar já é ato de fruição de mundo e de atrito com ele, gozo e desejo, em termos lacanianos, se imiscuem no movimento.

Deleuze compõe sua filosofia em termos dinâmicos, seus conceitos são linhas de força, compõe uma geografia. Os conceitos merleau-pontyanos são campos de força, compõe uma topologia. Não há nele puro movimento, como el Deleuze e Guattari, nem o estatismo da filosofia cartesiana. é uma tensão, um dinamismo, uma errância que não sai do lugar, como o nômade deleuziano. A carne não é tenra, ela é trêmula, tensa como um músculo prestes a pulsar no movimento, como se a duração do tempo pudesse ser compreendida sem que fosse dividida em momentos estáticos, nem isolada como uma positividade em si.

Não há "devir" em Merleau-ponty, mas este também não lhe falta.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Quando a carne se rompe...




O rompimento da carne é o movimento perceptivo que estraçalha os existenciais, e no faz ver com novas perpectivas. Não é uma mudança estrutural, mas um rompimento violento, um rasgo, uma ferida que se abre e que deixa jorrar os sanguinolentos signos desterritorializados, de forma a compor um traçado psicótico da vida. Se usado corretamente, se provocado, se implodido com dinamites previamente localizadas na fundação, pode-se criar algo novo.

Se explode, tem-se um prévio momento de angústia, correspondente ao movimetno de espansão das chamas e das ondas destruidoras. quando tudo está abaixo, nossa percepção só tem diante de si escombros do mundo, e tem de viver com eles... O momento psicótico da nuvem de poeira abaixou-se, e o que sobra é o campo do CsO, improdutivo e desértico, por onde transpassam sem rumo diversos fluxos de pura diferença... esse é o momento do Tédio. Pulsar monocórdio da paisagem puramente plana e lunar, entretanto sem crateras. a frente resta somente o inescrutável horizonte, que agora não é de sentidos, mas de restos... o perverso tediófilo alimenta-se de restos, não há mais falo, tudo é falo, sapatos, roupas, dinheiro, não há leis, há um percorrer de leis que se entediam a si mesmas por puro gozo lacaniano, que se reverbera e pulsa, infinitamente, fechado em si, pouco propoenso a divergências.

Separação - emoção - tédio. Sobrou-me um pinguim desterritorializado, um mundo reduzido ao que lhe cabe na mão, um imaginário tendencioso, que se atira ao nada de quando em quando...

Nada se planta e nada se colhe.

resta-nos o "Algo".

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Quando os dados extrapolam nossos olhos...

Um dos problemas das teorias sistêmicas é que lhes faltam concepções sobre as mudanças de fase. Conceber uma estrutura a partir da complexidade lhes parece ser uma forma de unir diversas disciplinas em um único movimento. entretanto, acabam tendo problemas semelhantas às das disciplinas "solitárias", que buscam reduzir os fenômenos a um único universo: o psíquico ao biológico, e este ao físico-químico, ou os fenômenos pspiquicos-socias à história.

Por exemplo, neste site, a rede de peptídios que interligam os sistemas neuronal, hormonal e imunológico foi denominada de rede psicossomática. Ora, é claro que nossa psiquê não existe sem o cérebro (não que este somente faça a diferença, ele é um momento em um desenvolvimento das espécies animais, juntamente com inúmeros outros desenvolvimentos simultâneos), mas ela não se confunde com ele. Esses grandes domínios, que geram inúmeras brigas em suas articulações, como:

- o psíquico com o social (Sociologia e Psicanálise, de Bastide, dá um amplo panorama dessa questão);
- o psíquico e o social com o histórico;
- o biológico com o psíquico;
- a passagem do físico-químico ao biológico, não tenho certeza do andamento da área. Parece haver um acordo maior;
- também entre dimensões físicas de estudo, como o cosmológico e o quântico. ainda encontra-se em estudo uma forma de integração da teoria de Einstein no corpo da mecânica quântica, um teoria quantica da gravidade. A teoria da supercordas com 10 dimensões parece ser promissora.

Entre eles, há muito o que compreender, principalmente porque parece haver uma "quebra de leis": as leis físicas da Mecânica quântica não conseguem abranger a gravidade, pois essa força é muito pequena e somente efeito a distâncias cosmológicas. Outro exemplo, o mundo físico e químico parecem corresponder a leis mais rígidas e matematicamente descritíveis, enquanto que a vida, segundo o filósofo Merleau-Ponty (livro "A Natureza"), parece seguir a normas mais flexíveis, que determinam um limiar máximo e mínimo (assim, o estado normal de um fenômeno concentra-se em uma faixa, como nos hemogramas: não há um número exato de leucócitos no ser humano normal, mas um máximo e um mínimo). (ver "Mundo como expressão")

Já no psíquico, entre consciência e inconsciência, Politzer coloca haverem diferentes linguagens. Uma linguagem pode ser grosseiramente descrita como uma estrutura espressiva aberta, cujo sentido ultrapassa a somatória dos termos que a compõe.

Voltando, integrar sem reducionismo, implica compreender a complexidade dos fenômenos, sem acarretar uma homogeneização nem uma redução das categorias. Há transições, e elas devem ser levadas em conta.

Merleau-Ponty, sobre a questão da vida, diz que essa surge a partir de um ôco que foi criado a partir da físico-química, surgindo como uma nova forma de relação. ôco não é falta, mas estruturação de uma dimensão. Por exemplo, na teoria do coacervado, pode-se dizer que as substâncias químicas entraram em relações recíprocas que acabaram por compôr uma nova estrutura, que propagou-se posteriormente por si mesma. Seguindo a teoria descrita por Capra em "A teia da Vida", as substâncias químicas adquiriram, por Gestalt, a capacidade de autopoiese, de reprodução de si, e de sintropia (estruturação em níveis energéticos mais elevados, de certa maneira formalmente oposto à entropia física).

Dizer psicossomático é reduzir o psíquico ao aparato cerebral. A tentativa teórica é boa, mas sua perspectiva acerca dos fatos necessita de ser trabalhada pela própria teoria, em feedback.

Mundo como expressão

"Lei" e "norma" são formas de expressão equivalentes, em nossa linguagem convencional, ao que no universo são os movimentos das das estrelas e na vida a regulação imunológica do corpo. Não há, no interior de cada núcleo atômico, uma fórmula E=mc2 em seu interior e que regularia sua fissão em uma bomba atômica. Na verdade, mesmo a partícula sobatômica não pode existir como uma caneca ou um livro, visível e palpável à nos, mas sua existência se faz através da intersecção de inúmeras formas de linguagem que, numa rede complexa, equivalem aos fenômenos visíveis que se esboçam nas telas das grandes máquinas de detecção. está na hora de se conceber existências através do retumbar da diferença, que cada vez mais força nossa perspectiva de mundo a sair de seu antropocentrismo, a devir por vários caminhos.

Pode-se, talvez, generalizar a concepção do corpo como expressão para outros fenômenos, e assim relativizar nossa compreensão realista do mundo.

Auto-explicação por insight

Percebo que, de todos os movimentos que inicio por vontade que faço minha, e que perecem por vonta própria (dele mesmo), estão vinculados há uma teologia e a uma cosmologia (e acabam por discutir também uma gnosiologia, uma ontologia, que acaba de vez em quando pendendo a uma metáfisica).

Pretensão do escritor, somente se vocês, leitores, sentirem que o fato de categorizar um grupo disjuntivo de orações por nomes altamente "statizados" significa exatamente elevá-las a essas categorias. As palavras acima são descritivas de campos de assuntos, e não categorizações.

Das Camadas transpassadas pelo tédio e sua posição topológica.



Se a estrutura neurótica é uma grande árvore rizomática que estratifica os devires em uma "consciência", que se diz digna de si e que acaba por sofrer ataques de diversos parasitas, lagartas e fungos, mas que mesmo assim conseguem, muitas vezes manter suas rotinas reguladas pelas estações.

Em volta de suas grandes raízes axiomáticas, sempre invadindo esse círculo limítrofe em um ponto ou outro, encontra-se o núcleo psicótico da personalidade, que é na realidade um grande gramado de raízes rizomáticas, brotando com seus devires por todos os lados, alimentando-se dos restos mortos e das estruturas arbóreas de nossas instituições neuróticas e paranóicas.

As raízes, tanto arbóreas quanto rizomáticas, penetram no grande solo da mãe perversa, macho-fêmea, aquela que pare seus filhos, os nutre e os corrói, aquela que está para além de qualquer limite, no solo ou na poeira do ar.

Abaixo dela, vê-se o magma libidinal que percorre as ligações rochosas e das destruições em massa.

Abaixo, o núcleo, férreo, permanece rotacionando em sua posição central, quente, comprimido, tenso como se suportasse o peso do mundo. move-se em intensa velocidade, mas não corre pradarias, apenas depara-se consigo mesmo, inerte, posicionando tediosamente as bússolas de todo mundo numa chata comunhão universal. Esse é o Tédio, campo de força mais que movimento, polarização en direção à si, não um dipolo, nem um monopolo, mas um "si-polo".

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O que alimenta nossos sentimentos?

As pessoas essencializam o sentido da vida em sentimentos de amor ou de dor, dependendo da imagem que tem de seus copos d'água. Tais sentimentos, que transpassam tão momentaneamente suas vidas, sendo percebidos em fulgazes relances da consciência, não conseguem por si só sustentarem uma existência humana.

Veja o amor. Por mais amorosa que seja uma pessoa, por mais feliz que se encontre, seja essa bonança alguma mal-formação de seu espírito ou apenas um grande acúmulo de capitais culturais, sociais, econômicos, etc, não pode estar presente intensamente, em forma pura, durante um período de tempo prolongado. Entretanto, sua ausência não é uma negatividade, falta de algo que nos completa. Se assim fosse, toda falta de amor consistiria na busca pelo mesmo. entretanto, o que se vê é que o amor pleno logo se substitui por outros sentimentos, simplesmente pelo dinamismo vital. Nossos interesses variam grandemente durante o dia e, quando estamos sérios, cansados, ou em outro estado dito de consciência, não falta o amor, este apenas não está em destaque.

Há de ser corroborar então pela positividade de uma multiplicidade de sentimentos que transpassam o sujeito, de modo que, a cada momento, uns ganham hegemonia sobre outros.

Não apenas isso, mas os sentimentos não são átomos isolados que interagem entre si, são mais uma estrutura em que cada um se define em relação aos outros. Assim, para Proust, a essência do amor é o ciúme.

O que se tem aí é um complexo movimento de subjetivação, que envolvem moléculas hormonais, cultura institucionalizada, vida familiar, acontecimentos presentes, passados e expectativas, etc etc etc...

Mas, abaixo de tudo isso, há um movimento que anima cada sentmento, cada movimento, e permite à estrutura que se movimente conforme sua dinâmica imanente.

O humor e o tédio são o magma do movimento psíquico. eles são como as pulsões de vida e de morte de Freud, lutam abaixo de toda a estrutura emocional, podendo estruturá-la, reestruturá-la, e até demolí-la em fragmentos.

Assim, o amor pode ser entusiástico, mas pode também-se render ao tédio. Há algo de mais fundamental nesse par de forças, que parecem transcender o sujeito. Há instituições humoradas, mas a maioria tende para o tédio dos movimentos repetitivos. O humor é mais criativo, feliz ou deprimente, ele controla à tendência à inércia do tédio, que busca a invariância e a consciência desta. O humor não se restringe à consciência, ele perpassa e lubrifica os movimentos, faz escorregar até o próprio tédio.

Tédio não tem a ver com ócio. Esse pode ser um sintoma do tédio, mas também é espaço criativo, libera as amarras lógicas e deixa os pensamentos correrem em conexões mais ágeis e flexíveis.

O texto aqui está parcial e imcompleto, não é fenomenológico nem artístico. É mais um vômito, com sua viscosidade impregnada de restos estilhaçados de algo que poderia, se seguisse seu trajeto cotidiano, compor-se em longas cadeias de uma estrutura harmônica e vital. entretanto, o pensamento não é um processo vital, mas sim um acontecimento que infelizmente se prendeu a cadeias de estratos que ressoam em tédio. Não segue, em seu caminho comum, cadeias lógicas, mas muitas vezes surge como blocos mal-conexos que se arrastam e sem nenhuma função, além de seu próprio movimento. Pouco criam, mas se entulham na Internet. Ao menos, esse não se pretende, e ressalvo aqui, a se constituir em um conhecimento plausível e de impacto.

É que, meu pinguim maroto, tremento sobre meus olhos, clamando por seu peixe, acaba por alimentar-se de meu tédio, retirando-me do texto que tinha que ler para digitar aqui palavras já esquecidas.

Do objeto do Tédio e a Epistemologia cruzada de "prováveis imcompossíveis".

Teria a matemática e a física uma linguagem ontológica? Claro, a matemática em relações abstratas, busca uma sequências de estruturas que se derivam, não é imanente, pois há axiomas que regulam de fora seus movimentos... a física estrapola a matemática para uma leitura do mundo, fazendo o duplo caminho da interpretação de dados e da modificação destes, através de inúmeras formas de leitura diferentes.

Bom, longe disso, haverá contatos entre as teorias físicas com o mundo. Claro, A filosofia, que busca em Merleau-Ponty um contato originário com o mundo, trilhando uma ontologia indireta, sabe bem que só por meio da linguagem pode-se clarificar esse acesso à experiência do Ser. Já a física, utiliza-se de uma outra linguagem, a matemática. Porém, o mundo com o qual ela entra em contato é muito mais indireto, o mundo dos instrumentos gigantescos para análise do infinitamente grande e do infinitamente pequeno.

infinitamente, pois o que se tem desse mundo é somente o rastro, a sombra, o fóssil. Ele não é a experiência mesma.

Ora, dizem os físicos, nunca nossa mão tocou em algo, os átomos de nossa mão repelem os dos objetos a serem tocados, nunca há contato. Entretanto, a experiência que temos é mesmo de uma promiscuidade com as coisas, mistura, completude sempre iminente e nunca efetivada, mas sempre ali, como uma sombra.

Como conciliar essas visões? A física avança pela distância que toma do objeto que percebe, a filosofia (de Merleau-Ponty), avança no contato íntimo com elas. Podemos não ver o fóton do vermelho, nem temos em vista um quale puro desse. Se a partícula é também energia, se o quale é uma impressão diferencial de um campo, se na física mesmo o campo parece solucionar a simetria da matéria, não há uma distinção entre o formal e o substancial, mas uma intimidade entre os dois.

Ao menos nesse sentido, tem-se um projeto comum.

Talvez, o melhor é abandonar a idéia de um conhecimento que progride por acumulação, e adotar a descontinuidade dos pontos de vista: Newton, Einstein, Quânticos, cada qual vê de diferentes perpectivas, mas nelas apontamos para o Algo.

Não o Ser duro e fechado, nem o Nada Vazio de si mesmo, mas o Algo.

A filosofia do Algo, a física do Algo, poderão talvez nos colocar frente a novas circunstâncias do mundo. Cabe construir esse visão, olhar por suas lentes e descrever o que aí se vê.

Certamente, Algo.