sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Quando os dados extrapolam nossos olhos...

Um dos problemas das teorias sistêmicas é que lhes faltam concepções sobre as mudanças de fase. Conceber uma estrutura a partir da complexidade lhes parece ser uma forma de unir diversas disciplinas em um único movimento. entretanto, acabam tendo problemas semelhantas às das disciplinas "solitárias", que buscam reduzir os fenômenos a um único universo: o psíquico ao biológico, e este ao físico-químico, ou os fenômenos pspiquicos-socias à história.

Por exemplo, neste site, a rede de peptídios que interligam os sistemas neuronal, hormonal e imunológico foi denominada de rede psicossomática. Ora, é claro que nossa psiquê não existe sem o cérebro (não que este somente faça a diferença, ele é um momento em um desenvolvimento das espécies animais, juntamente com inúmeros outros desenvolvimentos simultâneos), mas ela não se confunde com ele. Esses grandes domínios, que geram inúmeras brigas em suas articulações, como:

- o psíquico com o social (Sociologia e Psicanálise, de Bastide, dá um amplo panorama dessa questão);
- o psíquico e o social com o histórico;
- o biológico com o psíquico;
- a passagem do físico-químico ao biológico, não tenho certeza do andamento da área. Parece haver um acordo maior;
- também entre dimensões físicas de estudo, como o cosmológico e o quântico. ainda encontra-se em estudo uma forma de integração da teoria de Einstein no corpo da mecânica quântica, um teoria quantica da gravidade. A teoria da supercordas com 10 dimensões parece ser promissora.

Entre eles, há muito o que compreender, principalmente porque parece haver uma "quebra de leis": as leis físicas da Mecânica quântica não conseguem abranger a gravidade, pois essa força é muito pequena e somente efeito a distâncias cosmológicas. Outro exemplo, o mundo físico e químico parecem corresponder a leis mais rígidas e matematicamente descritíveis, enquanto que a vida, segundo o filósofo Merleau-Ponty (livro "A Natureza"), parece seguir a normas mais flexíveis, que determinam um limiar máximo e mínimo (assim, o estado normal de um fenômeno concentra-se em uma faixa, como nos hemogramas: não há um número exato de leucócitos no ser humano normal, mas um máximo e um mínimo). (ver "Mundo como expressão")

Já no psíquico, entre consciência e inconsciência, Politzer coloca haverem diferentes linguagens. Uma linguagem pode ser grosseiramente descrita como uma estrutura espressiva aberta, cujo sentido ultrapassa a somatória dos termos que a compõe.

Voltando, integrar sem reducionismo, implica compreender a complexidade dos fenômenos, sem acarretar uma homogeneização nem uma redução das categorias. Há transições, e elas devem ser levadas em conta.

Merleau-Ponty, sobre a questão da vida, diz que essa surge a partir de um ôco que foi criado a partir da físico-química, surgindo como uma nova forma de relação. ôco não é falta, mas estruturação de uma dimensão. Por exemplo, na teoria do coacervado, pode-se dizer que as substâncias químicas entraram em relações recíprocas que acabaram por compôr uma nova estrutura, que propagou-se posteriormente por si mesma. Seguindo a teoria descrita por Capra em "A teia da Vida", as substâncias químicas adquiriram, por Gestalt, a capacidade de autopoiese, de reprodução de si, e de sintropia (estruturação em níveis energéticos mais elevados, de certa maneira formalmente oposto à entropia física).

Dizer psicossomático é reduzir o psíquico ao aparato cerebral. A tentativa teórica é boa, mas sua perspectiva acerca dos fatos necessita de ser trabalhada pela própria teoria, em feedback.

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