sábado, 12 de março de 2011

Sobre o Documentário Zeitgeist

O que significa "perguntar pelo princípio"? a religião é colocada (tanto na defesa quanto na crítica) como algo que fala dos princípios. Ora, enquanto discurso que parte dos homens, o discurso do princípio deve ser compreendido em sua gênese contextual. Dessa forma, o documentário Zeitgeist, em sua ânsia por expôr a gênese de nosso pensamento "cristão", não deixa de estar subordinado a um Zeitgeist.

Incrível uma das falas: "Não queremos ser indelicados, mas temos que ser factuais. Não queremos magoar os sentimentos de ninguém, mas queremos ser academicamente corretos naquilo que compreendemos e sabemos ser verdadeiro. O Cristianismo não é baseado em verdades" (Zeigeist, os grifos são meus).

Vejamos as palavras empregadas: há um jogo que classifica o discurso de forma dual e oposta: o fato a verdade, om conhecimento acadêmico, estão opostos ao conhecimento religioso, mítico, falso.

Ora, o documentário prega uma pureza dos fatos, como se fosse um diamente bruto que a cada passo fosse lapidado e encontrasse assim sua maior proximidade com a Verdade. Mas vemos que vários filósofos e sociólogos já questionam essa noção. Bourdieu, sociólogo francês, dissertou abundantemente sobre as relações de poder no conhecimento acadêmico, e sua relação de classe com o conhecimento operário ou popular. Mais do que encaminhar-se à uma verdade mais plena, o que se vê é um jogo de poder: quem detém o poder detém a verdade. A Igreja, detentora do poder na idade média, sobrepunha-se até ao saber científico. Entretanto, a queda de um foi concomitante à elevação do outro. Hoje, quem é adorada nos templos televisivos é a ciência, como fonte suprema da verdade.

"compreendemos e sabemos ser verdadeiro". Nem o físico quântico tem real conhecimento da amplitude e da verdade de sua teoria, quanto mais uma teoria que se baseia no encadeamento de fatos de diversas culturas, descontextualizando-os e criando uma cadeia lógica. A logicidade de uma história ou de um encadeamento de fatos não é garantia de sua verdade!

Há aí uma questão sobre o conhecimento e a noção de Verdade. Esse disurso "Há uma verdade", é semelhante ao da religião. Não há mudanças de discurso entre os cristãos e o documentário.

Podemos então encontrar, nos discursos que se colocam libertários, o mesmo jogo de poder. A verdade, a iluminação, o fato, são os novos deuses... Assim, continuamos a cultuar o Sol...

Deve-se salientar que a crítica ao discurso adotado em Zeitgeist não é uma tentativa de invalidar suas descobertas e defender a verdade cristã... O que se busca é desvendar o movimento que se dá por baixo dos dois, mostrar suas semelhanças, e assim ponmderar nossas posições acerca do que é ou não verdadeiro, e até sobre a idéia adotada sobre a verdade.

Realizar uma crítica não é substituir verdades, mas contextualizar discursos, ponderar fatos, pesar seu alcance, e só eliminar aquilo que, após esse exame mais profundo, revelou-se inconsistente.

Uma religião torna-se despropositada quando busca, no discurso científico, encontrar bases que as ratifiquem como verdadeiras. Uma ciênmcia que trata suas descobertas como sendo a verdade suprema das coisas, se esquece da diversidade de pontos de vista, das abordagens possíveis, e assim torna-se divina, perdendo sua objetividade.

Há uma realidade mítica do ser humano, que conta para sua percepção, há um poder de julgamento racional, que lhe permite compreender mais objetivamente os fatos ao redor. Há diálogo entre essas realidades, mas sua compreensão ainda está por ser feita, na minha opinião.

2 comentários:

Mako disse...

Vitor,

Concordo que há uma despreocupação no filme com relação a se mostrar uma fonte da VERDADE sobre as religiões, mas não acho que seja igual as certas religiões, pois elas pedem pra você acreditar baseada em livros sagrados, enquanto que no documentário ele ti mostra onde procurar, mostras as relações com as outras religiões, e isso daria a você o poder de ir lá e investigar a veracidade de verdade, coisa que nenhuma religião jamais permitiria, ou as vezes se quer há a possibilidade disso.

Peter joseph, o criador do documentário, não tem uma visão muito ampla sobre religiões, na verdade ele tem uma visão desrespeitosa e ignorante, mas com uma boa intenção, a liberdade total da mente do homem. Ele infelizmente não estuda religião como algo espiritual e sim como um livro de informação, algo parecido como o maior crítico do cristianismo faz hoje, o Richard Dawkins, que é também considerado o porta-voz do ateismo, que na verdade não entende absolutamente nada sobre religião, pois tem uma visão totalmente limitada sobre ela.

veja a entrevista com peter joseph
http://www.youtube.com/watch?v=tw9IHJNB75E

Mas voltando o foco ao documentário, os primeiros 30 minutos do filme foram os mais polêmicos dos 3 filmes, exatamente por essa posição, e que tudo indica alguns pequenos erros, mas basicamente você mesmo pode ver a veracidade de tudo pesquisando. Acho que a forma com que é apresentado os fatos históricos citados por ele pode parecer presunçoso, e muitas vezes ofensivo pelas pessoas que assistem, pois não há uma consideração com a pessoa que realmente acredita naquilo e sim se espera no filme que todos engoliremos com facilidade esse tanto de informação.

Mas no final devo dizer que cabe a você, pessoa que assiste, filtrar e saber levar e receber a informação que recebe, acho que é muito mais uma questão de posicionamento de como receber o documentário também.

O que ele tenta no filme é ligar os pontos entre as religiões, pois quando um povo era dominado antigamente, não se podia implantar diretamente a religião do novo povo da religião, e sim tinha-se que mesclar para haver aceitação. Mas também é claro, que a maioria dela, se não todas, tem algo a ver com astronomia disfarçado de história (exemplo: 12 apostulos são os 12 signos do zodiaco que também tem uma relação distante com os sumérios que contavam até 12 não até 10) então a conexão pode ser inevitável, e talvez não por ser uma evolução da religião como é apresentado no filme, e sim a mesma percepção sobre a astronomia.

Aliás, gostei do seu blog.

Abracos.

Vitor "sem noção" disse...

Mako,

Sem vc, meu blog ainda estaria abandonado, sem aquelas discussões que tanto me motivam a continuar pensando!

Olha, é justamente dos primeiros minutos do filme os que eu mais gosto... os dados e as correlações apontadas sāo muito preciosas... eu acredito mesmo que estes tenham sidos os passos para a construçāo do cristianismo.

No todo, o documentário é um primor. O que busco fazer nāo é uma crítica que vise a demoliçāo de tudo o que foi dito, mas buscar, em seu fundamento, como se dá o funcionamento discursivo. Acho que voce curtiria muito ler sobre "análise do discurso francesa", posso te indicar uns livros sobre.

Nāo acho que seja mero discuido do diretor. Acho sim que seja uma falta de percepçāo do próprio Zeitgeist no qual se insere. Atualmente, tanto o discurso científico quanto o religioso estāo crentes de que todo fenômeno, divino ou natural, pode ser objetivamente provado, e que se ainda nāo se consegue é porque nāo há teoria ou instrumental para isso. Se voce viu o filme "aprendiz de feiticeiro", da disney, vera isso funcionando. É um filme de magia, mas ele tem que basear a magia na realidade científica, a magia nāo existe por si só. Quantas pesquisas existem pra provar que houve dilúvio, a humanidade surgiu de um unico casal, etc?

Esse é um modo de visāo sobre a verdade, que acirra a briga entre ciência e religiāo, mas que as coloca sob o mesmo funcionamento discursivo. Claro, o acesso a informações religiosas é restrito, mas isso é resquicio de uma forma de saber-poder antiga. Hoje, é na divulgaçāo ampla dos saberes que os controla, que nos controla.

Assim, se nāo acessarmos esse nível do discurso, mesmo no documentário continuaremos aprisionados.

Muito obrigado pela visita, adoraria continuar essas trocas! E que bom que gostou do meu blog!