quarta-feira, 29 de junho de 2011

Arqueologia íntima do tema do tédio.

Quando brotou essa inquietação:

"Por pensar que ser normal é pular de cada segundo ao outro, como se, no entremeio de 12:32:05 e 12:32:06 houvesse um espaço de inexistência, é que busco, nesta pausa mesma da vida, afirmar-me no prenúncio de uma inspiração profunda, que retumba meu diafragma e estremece as retinas, buscando restabelecer as colunas que sustentam os contornos, retas e ângulos que se atém à minha frente por esse extremo e silencioso esforço chamado tédio."

Frase de boteco de minha autoria.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Tudo se resume à troca de capital

Sete pecados capitais

Cultural
Econômico
Social
Simbólico
Espiritual
Mítico
Fantasmático

O "advogado do diabo" estava certo.

Onde ciência e esoterismos são iguais...

Penso que já está na hora dos pensadores do "oculto", do "esotérico" deixarem essa busca infrutífera, ou melhor, o caminho desgastado pelo qual seguem. Já as ciências "aprovadas socialmente", pelo menos algumas delas, já iniciaram mudanças paradigmáticas, mas o modelo de pensamento esotérico ainda se atém a formas de pensamento cujas consequências foram há muito estudadas.

Em "O Símbolo Perdido", de Dan Brown, o autor usa como artifício literário (a revelação de um segredo em pequenas doses instigadoras, tendo como atributo principal sua relação com o que se chama de "real") temas da ciência noética como sendo a grande revolução paradigmática da atualidade.

É incrível verificar que a relação corpo-mente continue sendo tema de estudos e recebendo cada vez maior atenção. Na realidade, esse tema é antigo, e as teorias que visam sua compreensão também.

Desde a Idade Moderna, vemos duas posições que ainda impregnam as mentes atuais, que são o materialismo e o idealismo radicais. Com o passar do tempo, tais posições passaram a ser defendidas somente por poucos autores ou presente implicitamente em determinadas experiências científicas.

Aquilo que hoje é chamado de esoterismo é a assunção de teorias antigas ou orientais por um público ocidental, que utilizam como chave interpretativa de suas exposições alegóricas e metafóricas o idealismo radical.

Não que tais teorias em si não comportem algum idealismo, mas não há uma análise profunda da arqueologia das noções de "ideia" e de "pensamento" para esses textos. Assim, a idéia de que a mente manipula a matéria, de que o pensamento é um ente físico que apresenta massa, ou de que a matéria é pensamento (Goswani).

Ora, como se buscar a natureza da relação entre matéria e pensamento, entre corpo e alma, se não se percorre um processo de arqueologia dessa relação, a busca de uma base para aí poder compreender os resultados teóricos.

Por exemplo, a premonição. Freud já considerava em sua obra que o sonho ou a sensação premonitória tem relação com com a estrutura psíquica do sujeito, tal como os sintomas, os atos-falhos, etc.

Entretanto, aprofundando um pouco mais na arqueologia de nosso contato com o mundo, podemos verificar que esse Grande Outro, diante ou pelo qual se estrutura o discurso, é não somente a alteridade do inconsciente, mas sim a impossibilidade da reversibilidade total entre tocante e tocado, vidente e visível, ou seja, o Grande Outro é a alteridade da identidade entre visível e invisível.

Há um invisível em nossa relação com as coisas, há um quiasma e uma interconexão que se dá pelo entre, pela distância, pelo contato à distância, pela transmissão expressiva da carne.

Merleau-Ponty nos permite especulações mais profunda sobre a relação entre corpo e alma, de modo que o pensamento da dobra nos fornece a possibilidade de fugir dessas posições extremadas tanto do materialismo radical quanto do idealismo radical. Não entrarei em detalhes, pois haveria de percorrer em grande parte a teoria merleau-pontyana, mas é importante apontar que aquilo que se chama de alma é o outro lado, o avesso, o invisível da visibilidade do corpo.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Ego-sintonia, ego-distonia, sócio-sintonia, sócio-distonia, cosmo-sintonia, cosmo-distonia

A psicologia com seu afã individualista (hoje já petrificado nas articulações teóricas, principalmente as subjetivistas), busca tratar a saúde considerando alusn fatores:

- Relativa adaptação social do comportamento patológico;
- identificação ou não do ego com o sintoma;
- os postulados teóricos, o inconsciente cultural (bourdieu), as matrizes simbólicas (Merleau-Ponty) do pesquisador;

Entre outras variáveis. A sintonia e a distonia de uma característica em relação à sensação do todo é uma característica importante, principalmente quando se fala do ego, do ponto de atração relativo que compõe a estrutura subjetiva inferida teoricamente.

a ego-sintonia de um sintoma coloca um problema social, principalmente quando se tem conjuntamente uma forma de "sócio-distonia": quando o sintoma ou comportamento está e dissonância com a estrutura social na qual se baseiam a "média" geral do que é a normalidade. Mesmo em uma teoria que traça as particularidades de cada arranjo psíquico, como na psicanálise, ainda há um falo que norteia nossa concepção do que é patológico e do que é normal. Por fim, o que era do âmbito da psicologia e da medici acaba por implica as grandes (in)decisões morais da sociedade. Velaj esses dois sites:

- pipizinho

- please dear anna

Os blogueiros aqui buscam defender, utilizando uma estrutura discursiva institucional, ou seja, que não se apega somente a uma decisão pessoal mas a uma lógica que seria confirmada ou ratificada por um campo específico da sociedade, de modo a lutar, "com as armas do inimigo", para defender o que atualmente se enquandraria mais em um sentimento não pouco assumido (porém implícito em muitos) ou patologicamente condenável. São casos mais específicos e menos divulgados do extremo da discussão da morte na eutanásia: a pessoa tem o direito (ou capacidade, e mesmo a escolha entre essas duas palavras já implica um camonho ético diferente) de tomar quais decisões sobre a si mesmo.

Em um dos blogs, alguém assume declaradamente uma preocupação com o tamanho peniano, até hoje sempre rondando os sentimentos e o imaginário, mas que, no discurso "racionalizante-objetivista", é algo sem-sentido e reprovável. No outro, alguál assume uma posição denominada "pró-ana", ou seja, alguém que assume declaradamente os valores estéticos que ainda regem a visão de corpo atual, e defende práticas da bulimia e da anorexia como algo não patológico, como uma escolha pessoal e imporante para se chegar ao objetivo alcançado.

Antes de se buscar um posicionamento pessoal acerca das opiniões ali esboçadas, o intuito do post é de apontar para o conflito entre uma posição psicologicamente "ego-sintônica", ou seja, que não é desconfortável e faz parte da personalidade do sujeito, e a "sócio-distonia" entre essa posição. sócio-distonia, pois a estrutura social geralmente tem discursos bem estruturados acerca desses temas e exerce controles sociais em ampla escala.

além disso, é interessante notar que é com uma argumentação lógica, uma busca de bases em outras fontes, há todo um trabalho de "institucionalizar" tais posições, pois a liberdade do sujeito e o direito sobre si não parece exercer mais força motivacional, ou seja, o discurso sobre a liberdade individual está hoje demasiadamente desgastado, e é ainda vestido tal como se faz com uma roupa de brechó em algum "tournant" da moda.

O uso da associação behaviorista de estímulos na axiomatização capitalística de sentimentos

esse "não tem preço" é axiomatizador de dupla via: por um lado ele mostra que os momentos de contato com o outro são inestimáveis, essenciais. Por outro lado, ele indica a ausência de valor econômico, que é o absoluto da promoção enquanto total beneficio e ausencia de custo.

é na desvalorização do capital que este se impregna em todos os meios, uma característica importante das redes de distribuição de informações na atualidade.
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terça-feira, 21 de junho de 2011

Corpo e classe


Não é a toa que Bourdieu fala do habitus antes como um esquema de disposições práticas. antes de ter uma ideologia de classe, pensamentos etnocêntricos de classe, ou seja, pensamentos "classitas", temos uma corporeidade de classe; nossos rins e baços estão impregnados de ums estrutura tão concreta quanto o tecido celular, aquilo que liga nossas céluas, nossos órgãos já são sociais, nosso corpo se compõe como um corpo de classe. Nossos movimentos, posturas, gestos, os primeiros balbucios.

Nosso esquema corporal não se constitui somente através da imagem do espelho, mas do outro como um reflexo do eu, nosso esquema é corporal. Assim, tendo o movimento, a práxis como uma dimensão de nossa tomada de mundo, a percepção, que se dá no intricamento com essa, também é percepção que se coloore socialmente.

Dessa forma, se coporalmente temos uma dimensão de classe (e essa arqueologia não é aquela da determinação objetiva da genética, mas da determinação dinâmica e processual que se dá na ontogênese e filogênese, no corpo como uma massa estruturada e estruturante que se forma simultânealmente nas dimensões bio-psi-socio-político-cultural... e esse rosário de termos é ainda insuficiente para designar o processo autopoiético que aí se vislumbra, há necessidade de termos novos, como o de Rizoma - Deleuze, dialética sem síntese, carne e Ser Bruto - Merleau-Ponty), nosso imaginário, nossa percepção, nossa tomada originária de mundo já contém em si uma certa dimensão de diferença social, em potência, em virtualidade, e que se atualiza nas vivências sociais mais concretas da criança, adolescente e adulto, na sua inserção nas instituições sociais (família, escola, empresa, universidade, governo, etc).

Assim, a ideologia, o pensamento de classe, as representações de classe, todo esse aparato cognitivo de descrição da superestrutura, nada mais é do que fruto de uma conexão corpórea com um mundo já em si mecanizado, estruturado e com seus estratos definidos.

sábado, 11 de junho de 2011

Subjetividade, dobra e psicologia


Vê-se que o bebê não é sujeito constituído. Pode-se dizer que a criança que na´sce é, primeiramente, uma dupla antecipação, de acordo com o que se pode acessar sobre ele (pois o nascimento do suejto em sí fica na ordem do invisível de direito, como punctum caecum):

- Biológica: enquanto estrutura fisiológica, percebe-se nos estudos embriológicos uma relação de abertura, tanto a um passado arcaico da vida que transparece nos momentos evolutivos da espécie, quanto a um futuro, pois tuda estruturação se dá na antecipação das formas futuras do corpo.

- Cultural: o sujeito-a-nascer é introduzido desde antes de seu surgimento na cadeia simbólica, sua posição é pré-determinada e sua vida estruturada pelas expectativas familiares, sociais e culturais (mesmo também ecológicas, ambientais, metereológicas, políticas...);


Assim, o sujeito é uma dupla dobra, dobrada e auto-dobrável:

- As linhas biológicas e culturais dobram-se em uma singularidade, em uma subjetividade;

- entretanto, a subjetividade tem como característica o fato de ser uma estrutura estruturada e estruturante, ou seja, ela é uma abertura de campo no sentido merleau-pontyano, ela abre uma virtualidade enquanto Unwelt bio-psíquico-cultural, na qual pode efetuar dobras e auto-dobras. Isso fica claro quando se analisa a contituição da imagem corporal para o bebê. De acordo com Schilder (a imagem do corpo, Martins Fontes, 1999, p. 215), o bebê inicialmente trata seu corpo como trata os objetos inanimados, pega-se como se pegasse um objeto qualquer. Nesse momento, o corpo práxico distingue-se do corpo visto e tocado, há como que uma ambivalência incompleta, uma disjunção que mantém o bebê em uma exploração ativa, tanto do mundo externo quanto de seu corpo como parte deste mais próxima a ele. O que ocorre é uma articulação progressiva entre o corpo perceptivo e o corpo motor, que conjugam como duas faces de um mesmo esquema corporal, nunca totalmente identificáveis (nunca toco-me tocando), mas também nunca separadas, de modo que todo movimento requer uma contrapartida perceptiva, e toda percepção é sobresignificada com o movimento e a postura do corpo.

Conceber a dinâmica do esquema corporal é compreender que o sujeito dobra-se a si mesmo, nunca completamente, nunca se fechando ao Fora, mas dobra-se a partir do Fora, através do Fora, e não somente pelo Fora. Dessa forma, pode-se evitar uma compreensão empirista na qual tudo é exterior a tudo, e uma concepção idealista, na qual tudo é o Dentro da consciência. A consciência mesma é uma abertura às estruturas externas através das dobras que a constitui como tal, ela possui um ponto cego, perspectivas, ela é situada em um mundo o qual também constitui, mesmo que inconscientemente.

Dessa forma, a psicologia enquanto intervenção na relação das subjetividades não pode ser dada como relação de conteúdos subjetivos, mas sim como escavação lateral, como re-constituição de um conjunto de dobras e redobras (nunca estáticas, mas sempre "semi-padrões" de dobra, como os atratores estranhos da matemática da complexidade), e a análise é uma busca de acesso lateral ao sujeito.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

subjetividade como singularidade topológica: o toro



O sujeito enquanto dobra, singularidade do Fora, é constituído enquanto um toro de dobras, de potencias de dobras, em torno de um centro que, em si, não existe. Seu corpo possui dinâmicas centrípetas (eros) e centrífugas, que agem como um atrator estranho, atrator que não existe por si, mas pela conjuntura de forças bio-psíco-sociais.

Se há o fora, este só pode ser acessado indiretamente, como um rompante do Real. Se há o dentro, esse é constituído de forças que foram capturadas no processo de subjetivação, que é social
Mas que depende de certos campos instituídos para se produzir.

Deve-se compreender a Natureza como campo dos campos, aquele que está entre a plena estratificação e a pura desterritorialização, Território de lugar nenhum em todos os lugares, vazio positivo, virtual concreto, abertura do "há".
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terça-feira, 7 de junho de 2011

o artista e a obra

Somos constituídos de um movimento de subjetivação que se valoriza nas subjetividades individuais. Ainda somos herdeiros dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, de modo que o sujeito credita a si mesmo os esforços e a criatividade de suas ações, cujas condições de produção há muito já foram determinadas.

Dessa forma, toda obra simbólica, valorizada pela economia cultural de um determinado contexto, acaba por se referir a um sujeito produtor. Sim, podemos atestar a veracidade disso, mas esse sujeito surje somente como uma singularidade de forças, sobre a qual não possui responsabilidade individual.

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Esse símbolo, o único que consegui produzir pelo parco poder da representação binária que disponho no momento, visa mostrar que o traço central, a trajetória do indivíduo concebido de forma linear pela visão atual, são na verdade o entrecruzamento de uma série de linhas de registros diferentes.

Assim, a responsabilidade de um sujeito por sua obra é a responsabilidade de seu mundo, e assim ele se esvanece em uma nuvem de sentido mais amplo, de um emanhado que nos ajuda a compreender as condições de produção de sentido de uma determinada época.

Assim, quando Lady Gaga se diz portadora da revolução do POP, ela não constata sua potência individual, como talvez pense, mas se mostra como uma nova estruturação das forças culturais capitalísticas...
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