sábado, 11 de junho de 2011

Subjetividade, dobra e psicologia


Vê-se que o bebê não é sujeito constituído. Pode-se dizer que a criança que na´sce é, primeiramente, uma dupla antecipação, de acordo com o que se pode acessar sobre ele (pois o nascimento do suejto em sí fica na ordem do invisível de direito, como punctum caecum):

- Biológica: enquanto estrutura fisiológica, percebe-se nos estudos embriológicos uma relação de abertura, tanto a um passado arcaico da vida que transparece nos momentos evolutivos da espécie, quanto a um futuro, pois tuda estruturação se dá na antecipação das formas futuras do corpo.

- Cultural: o sujeito-a-nascer é introduzido desde antes de seu surgimento na cadeia simbólica, sua posição é pré-determinada e sua vida estruturada pelas expectativas familiares, sociais e culturais (mesmo também ecológicas, ambientais, metereológicas, políticas...);


Assim, o sujeito é uma dupla dobra, dobrada e auto-dobrável:

- As linhas biológicas e culturais dobram-se em uma singularidade, em uma subjetividade;

- entretanto, a subjetividade tem como característica o fato de ser uma estrutura estruturada e estruturante, ou seja, ela é uma abertura de campo no sentido merleau-pontyano, ela abre uma virtualidade enquanto Unwelt bio-psíquico-cultural, na qual pode efetuar dobras e auto-dobras. Isso fica claro quando se analisa a contituição da imagem corporal para o bebê. De acordo com Schilder (a imagem do corpo, Martins Fontes, 1999, p. 215), o bebê inicialmente trata seu corpo como trata os objetos inanimados, pega-se como se pegasse um objeto qualquer. Nesse momento, o corpo práxico distingue-se do corpo visto e tocado, há como que uma ambivalência incompleta, uma disjunção que mantém o bebê em uma exploração ativa, tanto do mundo externo quanto de seu corpo como parte deste mais próxima a ele. O que ocorre é uma articulação progressiva entre o corpo perceptivo e o corpo motor, que conjugam como duas faces de um mesmo esquema corporal, nunca totalmente identificáveis (nunca toco-me tocando), mas também nunca separadas, de modo que todo movimento requer uma contrapartida perceptiva, e toda percepção é sobresignificada com o movimento e a postura do corpo.

Conceber a dinâmica do esquema corporal é compreender que o sujeito dobra-se a si mesmo, nunca completamente, nunca se fechando ao Fora, mas dobra-se a partir do Fora, através do Fora, e não somente pelo Fora. Dessa forma, pode-se evitar uma compreensão empirista na qual tudo é exterior a tudo, e uma concepção idealista, na qual tudo é o Dentro da consciência. A consciência mesma é uma abertura às estruturas externas através das dobras que a constitui como tal, ela possui um ponto cego, perspectivas, ela é situada em um mundo o qual também constitui, mesmo que inconscientemente.

Dessa forma, a psicologia enquanto intervenção na relação das subjetividades não pode ser dada como relação de conteúdos subjetivos, mas sim como escavação lateral, como re-constituição de um conjunto de dobras e redobras (nunca estáticas, mas sempre "semi-padrões" de dobra, como os atratores estranhos da matemática da complexidade), e a análise é uma busca de acesso lateral ao sujeito.

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