sábado, 16 de julho de 2011

Psicanálise, seu exercício e religião

Psicanálise, seu exercício e religião

http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-50/anais-da-religiosidade/a-cura-pela-palavra

Sinto que o artigo da Revista Piauí expõe um conflito, que não pode assumir pois não o coloca claramente a si. Por isso, talvez, tenho a impressão de que ele não assume lados, não traça para si as linhas de força desse debate.

Há no texto duas formas de confronto: Psicanálise X Religião e Psicanálise oficial X Psicanálise extra-oficial. O segundo conflito me parece mais pertinente no momento.

A Sociedade Psicanalítica Ortodoxa do Brasil coloca uma questão à prática e a instituição Psicanalítica: ela questiona a hegemonia que a sociedade se institui acerca de um conhecimento que, atualmente, faz parte do compêndio universal. Questiona o que é a psicanálise enquanto instituição, enquanto política. Nesse sentido, pode-se até vislumbrar seu "ar revolucionário", sua busca por uma libertação do ensino psicanalítico das amarras burocráticas da instituição. É importante questionarmos o que é a psicanálise e como ela funciona, qual é a teia de valorização política que a rege.

Bourdieu nos apresenta como o discurso está entremeado de uma rede de valorização do capital simbólico e social. O que é um bom psicanalista? claro que a teoria em si apregoa como tal profissional deve ser, mas quando este está inserido no mercado, ele acaba por se amarrar na rede de valorização social dos capitais. Mesmo durante seus estudos, sua formação já se dá seguindo as linhas dessa capitalização do conhecimento. Assim, os nomes e a fama, a imagem enquanto moeda, acaba por ser determinante, já que o público, analizandos, só podem se relacionar com os analistas por esse índice de valores e também pela transferência, de modo que as relações entre o interior do sentimento individual e o exterior das determinações sociais ainda constituem um problema a ser mapeado.

O que é o analista? primeiro um nome, um adjetivo, e um valor subjetivo-social, teia de determinações que pesam de acordo com o concreto da relação no momento de seu estabelecimento. Como o analisando chegou ao analista? como soube dele, qual a fantasia que o moldou primeiramente? Se formos percorrer em detalhes essa "mecânica quântica", só teremos como respostas os infinitesimais das possibilidades humanas.

Há uma certa independência das determinações das sociedades psicanalíticas, de modo que o debate político pode esbarrar no muro burocrático do grupo-terror que visa manter a unidade e a coesão do grupo. Por exemplo, em temas que se encontram mais sensibilizados socialmente, como por exemplo o status da homossexualidade. Esse ponto é chave na sociedade atual, pois toda nova abertura de conceitos e preconceitos sociais cria uma fragilidade crítica que pode atrair e estruturar discursos extremistas, ou novas formas de subjetivações capitalísticas. Mas, além disso, existe o movimento legal, que tem por função legislar sobre essa movimentação de práticas e ideais, de forma a prevenir (e isso estou idealizando) abusos. Por exemplo, na patologização da homossexualidade. Há um movimento legal de interdição desse conceito, mas também a resistência de grupos ou profissionais que mantém seu status patológico. Essa não é uma questão pontual, mas epistemológica em sua generalidade: qual é o impacto e a responsabilidade de nossas produções teóricas e as práticas subjetivantes que as permeiam? Não é somente uma questão de escolha teórica, mas sim de posicionamento moral frente às ideias que se divulga em relação ao movimento social.

a liberdade não é uma concreção atual de nossos atos, mas um horizonte, uma áurea invisível que permeia o "entre" de nossas determinações... não epi-fenômeno, pois ela é tão real quanto o invisível do visível de Merleau-Ponty.

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