sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Ócio e tédio

Muita confusão se passa entre os dois devires. Os sujeitos em inatividade aparente são visto principalmente através da lente moralizante do ócio, e quando dizem-se entediados, acabam por serem interpretados como preguiçosos a se desculpar por sua diminuta moralidade, pela qual se justifica seu distanciamento e falta de desejo, ou ao menos de esforço, pelas atividades laborais.

Entretanto, muita diferença há entre as duas palavras que entitulam esse texto.

Ócio indica simplesmente um estado do sujeito no qual este se encontra sem exercer nenhum tipo de atividade. As mentes moralistas, que por se prenderem às exigências capitalistas julgam a todos, de modo reativo, exaltando suas qualidades morais de "ser trabalhador" (mas torcendo avidamente pela sexta-feira e excomungando a segunda-feira de sua inexpulsável posição temporal - a de ser após um dia sem trabalho); estes colorem de pútridos odores os momentos de ócio, os quais não se permite, e julga-o espaço aberto aos labores de outro ser, demoníaco.

Ora, é justamente aí que confundem o ócio com o tédio. Em si, a ociosidade mostra-se como aquela que nos retira do cotidiano, do estrato capitalístico que nos determina, e abre largas vias desterritorializadas, preparando-nos para a criatividade, o novo, a pura expressão, se é que algum dia esta foi pura.

Não que não haja aí um princípio demoníaco: essa capacidade desterritorializante em si é fator que desmantela o habitus e a repetição capitalística de valores, e assim torna-se um princípio maldito. Assim se vê na opinião social e na vida de muitos artistas e obras.

Mas esse poder destrutivo, também demoníaco, que é enfocado quando se descreve o ócio na opinião popular, esse é fruto do tédio. Quando as águas caudalosas do devir devasta os estratos, e acaba por dirigir-se a extinção brutal de tudo e de si mesmo, isso que Freud dizia ser repetição pulsional de Tânatos mas que é a reverberação do tédio.

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