quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Gozo das escaras do tédio

A existência zumbinesca do tedioso é circular, na repetição do mesmo. Tal imobilidade temporal, já que carnalmente perdeu a quarta dimensão, na estagnação da diferença, gera  escaras no tecido carnal, feridas de pura dor e gozo. O gozo do tédio é o fechamento cíclico de sua órbita sem centro, é manutenção de seu movimento em atrator estranho, e finalmente fecha o indivíduo na ausência da morte. Não que este é imortal, mas sua vivência, presa ao instante, perde a passagem do tempo e, sem sofrer da finitude, sem necessitar se defender dela (o que constituiria uma vida inautêntica ao menos), acaba solto no espaço-tempo, uma mônada em puro excesso ou falta de si, desprendida do tecido do Fora. Não se torna errante, como as rápidas multiplicidades que atravessam o tecido carnal e obrigam-no a costurar-se constantemente, mas habitam-na sem paixão nem terror, sem ódio nem violência. uma existência cujo termo "pacato" adquire extensão exorbitante.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

#morteaoemoticon



Estou farto da virtualização
da descorporificação da vida.
Não é na pele que se arrepia de prazer,
no estômago que dói a angústia?
Não são as pupilas que se dilatam no medo,
os músculos enrigecidos na raiva, o pênis na luxúria, o dedo na petulância?

Ora, se o que se vê na tela são máscaras,
que carnaval duvidoso é este,
que não vê atrás do papier-machê
as cicatrizes de uma longa vida?
que não vê que o beijo só é macio pela união das duas eternidades encarceradas
nos quatro lábios e duas línguas que se tocam,
as mãos que afagam acariciam toda uma vida,
realizada ou não?
À todos os que tomam bits por pessoas, cuidado,
pois assim acabam por esvanecerem-se no grande oceano das séries binárias,
e perdem-se de seus próprios corpos, prazeres e história,
tornam-se frios transistores do cotidiano.

Liberdade fantasmática, Igualdade hiperbólica e Fraternidade do Mesmo

Sob a égide do signo, em seu movimento infindo de deshierarquização e equalização absoluta, a diferença morre por semelhança ou contingência. Ficam de fora as disrupturas, as dissonâncias, ou seja, a emergência da Diferença enquanto tal.
 
Deleuze: positividade da diferença, Merleau-Ponty: identidade na diferença
 
Por mais que as duas abordagens se contraponham, pois uma prega que é na diferença que os elementos se imbricam e que o sujeito se coloca no mundo, enquanto a outra parte da Multiplicidade da Diferença para compreender suas reverberações frente aos jogos de forças, ambas mostram um movimento que, mesmo fundamental, permanece sombrio, permanece no gueto. Sim, ganhar o mundo, sair do armário, tornar-se acessível, tudo isso o descaracterizaria do que ele realmente é?
 
Creio pensar assim os que vêem a aplicação das normativas da Revolução Francesa hoje. Pois aquilo que chamamos de liberdade é a ínfima capacidade de ponderar frente a um jogo de forças que não é somente exterior ao sujeito, mas é seu criador. O que chamamos de igualdade tornou-se um esforço de equivaler tudo, abolir as diferenças ou aceitá-las, mas transportando-as para um regime comum de signos, de modo que todos possamos entendê-la, e assim abolir e traduzir são o mesmo. E o que sentimos como sendo fraternidade é apenas a ocultação dos horizontes do outro e a tomada da intersubjetividade sob o narcisismo de uma coesão de mesmos. Ou seja, a Alteridade se esvazia de sentido e se agrega como mais um signo do moderno.
 
Ainda há guetos, ou seja, recantos onde a diferença se manifesta plena, mas o trancafiamento no gueto é a única alternativa frente ao medo de desagregamento que acompanha o embate com a diferença. Mas, aos poucos, essa massa que é o social acaba por incorporar, por tradução sígnica ao capitalístico, um pouco dessa diferença, deixando o seu fundamental para trás.
 
Por exemplo, o movimento homossexual é agregado à sociedade no que tem de mais próximo, nas relações "estáveis", na busca por direito político, mas aquilo que fica de fora, o que transparece cada vez que o beijo gay, mero contorno de um problema inominado, vira polêmica, é o contato corpo a corpo entre dois homens, entre dois pênis, o roçar de pêlos, o ânus, o que foi soterrado por toda a terminologia da sexologia atual.
 
Outro exemplo é a necessidade social de agregar a cultura nerd, já que depende amplamente destes e do meio digital para continuar a produção de capital cultural e econômico. O "nerd", que é um subproduto dos sistemas sociais intra-escolares, torna-se agregado pelas potencialidades de consumo que introduz: há toda uma subcultura que se torna passível de consumo em massa, o que se percebe com a grande ocorrência de blocbusters tendo como tema heróis pouco conhecidos das massas. O que fica oculto é que essa inteligência-fetiche, resíduo de uma exclusão social, passa a ser objeto de uma sublimação do bullying, tal como ocorre com outras diferenças que hoje são aceitas em prol do "politicamente incorreto".
 
Em São Paulo, a força pela igualdade de direitos conseguiu abolir o "Dia do orgulho hétero", fachada ultra-direitista que se molda atualmente com a justificativa de ser vítima da supervalorização do Outro, do diferente. Uma boa vitória, mas, como acompanhei pelo jornal "Folha de São Paulo", houve um resto não explicado. Carlos Apolinário, defensor da criação do "Orgulho ao Mesmo", questiona porque é permitida a Parada do Orgulho Gay mas não a Marcha evangélica ou dos sindicalistas.  A imposição despótica da diferença é tão prejudicial quanto a imposição imperativa do Mesmo, pois estas ao menos despertam a reação da Diferença. Assim, elas não oferecem tanto risco quanto a equivalência sígnica em nome dos direitos de liberdade, igualdade e fraternidade, que mata a diferença lentamente, como um sapo cozido em fogo brando.

Trecho

Por preguiça, acabo escrevendo trechos inconclusos, abandonados por entre anotações empoeiradas, que se perdem afetivamente de minha memória. Bom, talvez colocá-los aqui seja uma forma de ressurreição...

"Foi a gota d'água - que transbordou das pálpebras manchando as nítidas lembranças em míríades de dores distorcidas, curvilíneas. As lágrimas são minúsculas tempestades, lubrificam a pressão dos olhos e rosto, tanto na difícil tarefa de conter os dilúvios de nosso coração estraçalhado, quanto parcelas das corredeiras que se formam com o fim da pressão, com a queda da última resistência do corpo" ...


sábado, 8 de setembro de 2012

Fruição e Fricção



Costuro-lhe todos os lábios,
escavo então novas profundidades.
Dou-lhe uma nova geografia.

Todo tapa dói, pois só se espanca o ser amado
As cartas de amor sangram ódios insuperados
e tingem de escarlate, por entre as letras de Moisés,
o puro vinho produzido
por fruição e fricção.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Espacialidade e temporalidade do sujeito

Hoje ainda se imagina que as pessoas são sujeitos, monadas espaciais, possuidoras de uma interioridade localizavel, em relação a um fora. A temporalidade, se o afeta, atinge-o por inteiro,e o modifica por igual. Essa concepção espacial leva-nos a necessitar de um conceito que explique a mudança temporal que o sujeito sofre. E nesse sentido que fala-se em necessidade, desejo, motivação, anunciando um vazio a set completado, completude que e a chave da sobrevivência do sujeito.
Ora, se por outro lado concebemos a subjetividade não mais a partir do espaço, mas sim pela temporalidade, passa-se a conceber a mudança como imanente ao devir que e o sujeito mesmo,e não algo que o afeta de fora. Há sim auto e hetero afecção, marcas constitutivas da centralidade do devir.
Assim, não e a falta que move o sujeito, não e o desejo de completude. O sofrimento humano não ea prova canal de que sonos imperfeitos. Historicamente, houve uma depreciação social dos humores tristes, e o favorecimento de uma alegria que na realidades dee da por negação. A pessoas ser manipulam quimicamente em busca da felicidade quis a sociedade promete,tomam analgésicos contra a vida. A dor, mais que evitada, deixou de fazer parte do registro psíquico, e quando irrompe o trauma não e assimilado. Cabe pensar bem o que a sociedade fez com os componentes agressivos, tão como se fez com os sexuais.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

sábado, 11 de agosto de 2012

Internet e a ancoragem de sentido

A internet derrete os campos de ancoragem de sentidos e coloca todos os signos em equivalência. Assim, tudo entra na lógica do like, e pode se espalhar exponencialmente pela rede. Uma crítica, uma reflexão, uma frase, deixam de valer por  suas direções iniciais de sentido, tal como se configurava na experiência do criador, e passam para a lógica das redes sociais. Como dito por Baudrillard, a massa se magnetiza mas logo volta a seu estado original. Em outras mídias, como os livros, estes ainda são bem codificados em seus respectivos campos de saber ou acadêmicos. Na televisão, há ainda o domínio das grandes empresas músicas e a unilateralidade da transmissão. A multiplicidade e a ausência de centros informacionais na internet permite visualizar melhor o efeito de massa.

sábado, 16 de junho de 2012

O sacrifício do Pinguim

Pinguins só vivem nesse reino capitalista quando podem ser empregados pela máquina burocrática. Se o desemprego bate-lhe nas costas e o coloca "no gelo", o corpo apenas suspira, aceita, e vai trabalhar suas 12 horas diárias.

In Afecto

Para Alice


“E como não,
e por que não dizer que o mundo
respirava mais se ela apertava assim.”

Oswaldo Montenegro, Bandolins



Em teu corpo soçobrou minh’alma inútil, com sua estúpida falta de matéria. De pouco serviram os sermões dominicais; Vieira ainda dava-me esperanças, mas teu mel... o mel de teus seios, a saliva de tuas ancas, nada, nada poderia conter o desastre de meu espírito.

Pouco - no torpor desse tufão, restaram-me apenas alguns aforismos niilistas, centavos de retórica e um, apenas um grão de lógica, pois era ele que conseguia por si só relembrar-me, nas noites em que não passava debulhando oniricamente seu corpo, de ir ao botequim, embebedando em outras feminilidades, sentindo outros calores, numa estranha felicidade pós-cortiça e passageira.

Chamegava meu queixo, eriçava-me os pêlos. Esvaziava meu peito inchado com olhar de esguelha, matreiro. Deixava a alça do vestido pouco frouxa. Transparecia opaca. Tão opaca, tão retinta, soltava os cabelos... Os cabelos. Aprisionado, horas a fio, fio a fio, ficava em carícias. Contava-os, numerava, em histórias de uma infância apagada, distante.

Fiz café, levei-o às sedas de tua cama, servi-te apenas de cuecas, fumei na janela inspirando sua imagem a bebericar, repassar os dedos pela borda, esboçar sorriso de lembranças fugidias. Casava! Jurava ao padre suas ladainhas, fazia sinal da cruz, a teria em núpcias como se nunca houvesse visitado suas intimidades. Riu de meus planos como juvenis, apontou meus quarenta e tantos, diagnosticou-me apenas uma paixonite, cura fácil, mais uns goles e pronto!

Foram-se garrafas, noites. O café esfriou, esperei. Um estivador qualquer, um outro suor, foi-te levada por sei lá que odor mais atrativo. Simplesmente disse adeus, dito nas entrelinhas da vidente borra que me deixavas na pia.

Sem alma, era somente coração. E estômago. Restou-me o último, a digerir, junto com petiscos e álcool, as poucas marcas de suas unhas na minha pele. Com o tempo, foi embora seu cheiro, o gosto de hortelã em meus lábios, o vigor do peito orgulhoso. Somente a bílis denunciava movimento, reclamava alguma ação. De resto, do resto, só digeria.

Vitor Hugo de Oliveira

Pouco tenho a dizer.

As palavras parecem desmentir por sua recorrência exacerbada, mas não há muito o que dizer.

Sinto que a única coisa que valeria a pena dizer, se encontra no meu estômago. Lá estão minhas alegrias e tristezas, um não-sei-o-que que me diz algo no vazio, vazio cheio de absolutos possíveis em sua incrível densidade.

Para ser mais exato, é o aleph entre duas bocas que compartilham uma respiração tântrica, é o espaço entre a mão e o corpo que toca, entre os campos negativos de seus elétrons. è o que toca, mas ao tocar, não toca, passa de um ao outro e deixa de ser apenas um e outro, mas meu corpo no outro, outro corpo no meu.

Não é silêncio; É o desespero mudo por não tocar, por não se unir, desejo sóbrio de um bêbado frente ao bar, que quer entrar... mas como?

Mas como? ? ?

?

por que? não encosta, não pego, pois se pego, não há mais eu nem nada, mas sim uma mistura eu-outro-folha-casa-pátria-mundo-fatia de pão mofada à espera de...

Àfalo

Venho aqui expressar que sinto-me castrado. Porém, a perda de um falo não resultou em uma tristeza absoluta mas, o que é pior, levou-me a um estado de depressão construtiva, bem ao gosto dos psicanalistas.

Não tenho muito tempo, tenho que buscar minha vida nos códigos monetários. Não que isso seja algo novo a mim, mas somente o peso da labuta cansa-me... retomo esses parágrafos em outro momento, nem sei quando a labuta começou a cansar-se, quando o cotidiano tornou-se hábito, mas sei que, a poucos dias de férias, sinto como se minha bexiga mental estivesse por explodir, tal como a real se comprime mais violentamente na razão direta da distância do banheiro. 

Esse era outro trecho perdido, buscando completar-se em algo mais consistente, mas que ficou pelo meio, nada mais digno de um eunuco social.

Frase perdida

O contato entre as mãos, essas membranas semipermeáveis, essa distância irremediável entre dois seres, esse fracasso da fusão entre dois corpos, é compensado pelo suor que lubrifica e imiscui as substâncias em uma área comum, de trégua e de guerra...

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Tempos de orkut

Eu, por Merleau-Ponty: Massa de carne que teima em ver sendo visto, sem saber se toco ou sinto, assaz ambíguo para me desfazer do resto do mundo. Repleto de caminhos, entraves, porquês e sentidos, meio amorfo, talvez...


Eu, por Freud: Mamãe deu mamá, limpou cocô, deu tapinha e pôs na escola. Papai ameaçou cortar meu pipi. Tudo porque nunca quis sair do grando Paraíso oceânico (demorei até pra nascer...), e porque quis matar papai, por não me deixar lá, fundido, absorto, como um simples órgão a flutuar...

Eu, por Deleuze: ?

Eu, por Murphy: Todo nascimento é o início da morte.

Eu, por mim: A grande Roda da Fortuna é uma foice que circula, corta, transforma, distorce, conforma, corrói, pergunta e pergunta e pergunta...

Definir: Limitar o Múltiplo através dos limites "precisos" da linguagem. Enumerar, prediz, reduz.
Ou seja, Mentir.

Não é convencimento meu afirmar que não posso ser definido por ser grande demais para caber num conceito. Apenas deixo claro que, entre eu e vocês não há só uma teia de indeterminadas possibilidades de sentidos e de ação (e cabe a cada um tecê-las, conforme suas vidas, sua história e seu próprio universo), mas há também a perspectiva, as visões de mundo, a probabilidade e tudo aquilo que tira o Homem do seu altar no Ser e no Eu (e, o pior, que nos tira a legitimidade de conjugá-los no "eu sou").

Assim, que o tempo passe, que os acontecimentos atualizem-se nessa corrente centrífuga que é o Agora, que cada um opine com quiser... Sendo assim, Foda-se, seja lá o que for.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Trecho: Serotoninas minhas

     Sofro, "pero no mucho". Sofro a medida dos fracos, em doses homeopáticas distribuídas durante o dia vide bula. Sofrimento fantástico, daqueles que alternam desculpas e se arremedam uns aos outros... o que se repete, sempre diferente, para não se habituar de hábitos já feitos, para diversificar a vida pública, para complementar o gozo...
     Ora, temos vergonha da felicidade mundana e gratuita, como pode-se nos dias burocráticos de hoje ser feliz por mero capricho hormonal? Há uma cota de sofrimento a ser paga, uma justificativa que valorize cada regojizo. Pago minha dívida, recolho os centavos em balas e as mastigo amargas e pungentes. Retiro o extrato bancário de meus lucros agonizantes, planejo o jogo astuto das altas e baixas do mercado, calculo milimetricamente os ganhos, e reverto as perdas em novos merecimentos.
       Capitalizar a dor, torná-la moeda negociável frente o excesso de culpa que a vida atribui aos fracos - essa administração é necessária à sobrevivência. 

     

Abaixo à flacidez!

Na respiração descompassada,

altos triglicérides, baixas serotoninas
entorpecido de concreto e aço e sol e carbono

O flácido pênis que pende do pescoço sufoca o grito
pesado da gravidade... das ações e baixas de capital
da gravidade dos obituários e cartórios,
das convenções e do peso do ouro.

Quero ser túrgido!
pegar fogo como zepellins de hidrogênio,
desbravar o cinzento metálico das alcovas burocráticas,
e encontrar a efeméride selva selvagem que se chama liberdade.

Abaixo à flacidez!

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Poema: Ainda

Em meio à dureza das normatizações, me rompem tais emoções:

Ainda

Sobre o que ainda não foi dito
sobre o que muito já se disse, se sentiu, se sofreu
preservado feito fóssil nas densas sedimentações
depositadas sobre os corações, as rugas, as lágrimas.

Muito se nasce e se resseca na fértil terra de nossas almas,
que se muito arada há de necessitar de pousios
quando as chuvas acalentam as ressequidas rachaduras
quando o Nordeste se alumia em verde flora
e exala o perfume da bela rapariga
que se apronta, que acasala, que se achega nos ombros e sopra o ouvido

Arre! os tremores da pele que brotam em pêlos hirtos
são novas florestas que nascem ao comando teu,
as mesmas que nascem... e depois morrem, e se sedimentam em palavras
no corpo nu
e fertilizam as frases de palavras desvirtuadas
e brotam em dizeres tampouco puros
e abrem valas entre os lábios
de sons não professados, ainda
.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Ícaro submerso na luz

Despertar de Ícaro, Lucílio de Albuquerque (1877–1939).

"Eu quero mais é que me faça flutuar essa tal gravidade
forjar minhas asas nas duras
duras penas da verdade"
O Feliz Amor do Felino Ferido

Como voar sem erguer os braços,
atingir velocidades ultrassônicas e distâncias atmosféricas?
Como ser contido, como escolher o caminho do meio,
ser moderado, ter a parcimônia do entre-segundos?

Estou siderado!

Arregaço minhas mangas, abro minhas asas,
ignoro as físicas algorítmicas e frias, viajo direto à luz


Será que queimo de velocidade ou de temor?
Derreto minhas possibilidades em lágrimas ferventes,
chorando a dor em Technicolor, no vermelho-sangue das costas
Chibatadas solares
Piedades nebulosas
com suas gravitações newtonianas

Após o vértice dos sonhos,
no torpor de mil brilhos estelares
resvalo na luz com as pontas dos dedos,
sucumbo ao pecado
ao corpo
ao inferno,
...

Submerso e disperso na verdade ondulante e incerta
desfeito em duras penas:

Com vistas esbranquiçadas não mais vejo,
como se veria.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Caos

Podemos viver o caos, vivenciá-lo em seu devir, mas nunca representá-lo, apreendê-lo pela conaciência. Todo caos se organiza em padrões, a vida possui padrões inquestionáveis, mas nem sempre determinados. Nossa relação se dá com um mundo prenhe em organização, e por isso possui um horizonte de caos.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Big Bang ontológico

A ontologia do Ser Bruto de Merleau-Ponty aponta para uma região de promiscuidade entre eu-outro, razão-desrazão, sujeito-mundo. Região na qual emerge as primeiras diferenciaçoes de sentido. O que há para além disso?
Existe, como na vida, uma região anterior ás primeiras diferenciações, uma fusão inicial como berço de todo o Ser. Um além da metafísica? Um Big Bang, anterior às leis da fisica?
Não sei se há algo ou um vazio, mas sei que somente podemos permanecer em um entoeno [?], como se nosso saber e sentir fosse um toro, mas no qual nos encontramos não circulando um vazio, mas circulando a nós mesmos. O ser é auto-contido e, se não há ser, mas um constante devir e jogos de forças, a tese fica ainda mais estabelecida, pois esse se dá na multiplicidade, e a questão do uno desvanece.

terça-feira, 13 de março de 2012

Darwin, e que mais?

A vida é somente a sobrevivência do mais apto? Se assim fosse, a teoria somente parece dar conta da luta das especies, de um ambiente cuja sobrevivência é escassa, custosa.

Entretanto, o que se dá nas espécies que estão bem adaptadas, em um ambiente estável e pouco selecionador? Ou quando uma gama de mutações conseguem se conciliar no ambiente, sem uma disputa?

Há teorias que abarcam o excesso vital, quando o organismo se multiplica, se diversifica, começa a exibir uma mais-valia vital, que não se dá como um aleatório, mas se organiza, se estrutura conforme suas condições de campo.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Recado aos burgueses do século XX

No homem, até o necessário é gratuito. Coitado daqueles que veem no centro do homem uma falta fundante, um buraco de profundidade inestimável cujo capital, sexo e arte não conseguem suprir. Não, não há homem-queijo suíço.

É justamente a falta de uma falta que marca nossa subjetividade. Vivemos o risco do tédio existencial. O neurótico saiu de cena com o desenvolvimento dos mass media e da cultura individualista e superficial, o psicótico, antes excluído da sociedade, agora passa por uma tentativa de axiomatização pelo capital. Sobra o perverso, novo modelo de vivência.

Tudo é possível, há explicação para tudo, desde que se possa obter um mais-gozar. Entretanto, na cotação de prazer, na expiação do desejo, na equivalência sígnica de tudo, pouco sobre para o homem, que recai em um tédio existencial. O excesso que nos marca, de informação, de conhecimento, de trabalho, torna o vital cada vez mais submetido ao mais-gozar, que desterritorializa e axiomatiza em uma onda de subjetivações temporárias e televisionadas.

Não há espaço para falta. Não há tempo para falta. Não há grana para a análise.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Não sei o que dizer

Não tenho nada a escrever. Nada de importante a dizer... exerço a função mais pura da internet: postar signos indiferentes, iluminados e assim sem região de sombras... um fluxo corrido de nada nadificante, de vazio que se aprofunda... enfim...

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Nostalgia dos membros, sofrimento do corpo

Em meio a um atendimento, retornou em mim uma angustia antiga, companheira, em uma intensidade nunca antes experimentada. Uma sensação de bugalhos.

Lembram-se deles? Aqueles cinco saquinhos de arroz, jogador ritmicamente ao alto enquanto pegávamos os restantes jogados ao chão.

Quando criança, tomada por alguma ansiedade sem nome, era essa sensação que tinha. Como se estivesse entre eles, ou com eles dentro de mim.

Dessa vez, a sensação tomou novas proporções. Na realidade, eu tomei novas proporções. Sentia-me grande, e tomado pelo medo irracional de não caber no sofá. Inflado, minhas mãos pareciam inchadas, tudo ficava pequeno. Entretanto, mantinha a calma e o raciocínio, embora parecia perdê-lo. Deveria ter encerrado, e o fiz antes do horário previsto. Mas, antes do encerramento, senti-me como um balão esvaziado, e uma alívio e um calafrio tomaram meu corpo.

Geralmente pacientes deprimidos nos sugam as energias. Na assunção generalizada que fazem das culpabilidades alheias, retiram junto com a culpa do Outro sua liberdade e vitalidade, nos cansam e temos então que nos perceber desse movimento, para assim trabalharmo-nos melhor como continentes e interpretar seu conteúdo.

Mas o que aconteceu foi inesperado, não uma inflação maníaca, mas angustiante, como uma perda de controle. Estaria eu recebendo algo que não cabia no continente? Se sim, era algo de uma ordem intercorporal tão primitivo, que não se pode ter acesso. Tudo parecia igual, nada diferente ocorrera. Que força seria essa com poder de me ressucitar algo tão antigo?

No fundo de nossa arqueologia, no solo comum de nossas vidas, algo sem nome move-se, e abala as camadas tectônicas de nossa personalidade estratificada. Que bestiário gigantesco classificaria a potencia que subjaz nossas raízes neste mundo?

Prefácio II

A vida sempre acontece por antecipação, quando nasce já arrasta em si todo um passado e, quando morre, comporta sempre algo de inconclusivo. Este texto, como outros, foi antecipado por um fremir de dedos, nasceu sem previsão e, por certo, morrerá repentinamente.
Podem as moléculas dizerem "sim" umas as outras... entretanto, cada afirmação se faz por violência, que recorta o amorfo num sistema, ou rebenta uma estrutura para fundar outra. Em outras palavras, negam seu status quo.