sábado, 16 de junho de 2012

O sacrifício do Pinguim

Pinguins só vivem nesse reino capitalista quando podem ser empregados pela máquina burocrática. Se o desemprego bate-lhe nas costas e o coloca "no gelo", o corpo apenas suspira, aceita, e vai trabalhar suas 12 horas diárias.

In Afecto

Para Alice


“E como não,
e por que não dizer que o mundo
respirava mais se ela apertava assim.”

Oswaldo Montenegro, Bandolins



Em teu corpo soçobrou minh’alma inútil, com sua estúpida falta de matéria. De pouco serviram os sermões dominicais; Vieira ainda dava-me esperanças, mas teu mel... o mel de teus seios, a saliva de tuas ancas, nada, nada poderia conter o desastre de meu espírito.

Pouco - no torpor desse tufão, restaram-me apenas alguns aforismos niilistas, centavos de retórica e um, apenas um grão de lógica, pois era ele que conseguia por si só relembrar-me, nas noites em que não passava debulhando oniricamente seu corpo, de ir ao botequim, embebedando em outras feminilidades, sentindo outros calores, numa estranha felicidade pós-cortiça e passageira.

Chamegava meu queixo, eriçava-me os pêlos. Esvaziava meu peito inchado com olhar de esguelha, matreiro. Deixava a alça do vestido pouco frouxa. Transparecia opaca. Tão opaca, tão retinta, soltava os cabelos... Os cabelos. Aprisionado, horas a fio, fio a fio, ficava em carícias. Contava-os, numerava, em histórias de uma infância apagada, distante.

Fiz café, levei-o às sedas de tua cama, servi-te apenas de cuecas, fumei na janela inspirando sua imagem a bebericar, repassar os dedos pela borda, esboçar sorriso de lembranças fugidias. Casava! Jurava ao padre suas ladainhas, fazia sinal da cruz, a teria em núpcias como se nunca houvesse visitado suas intimidades. Riu de meus planos como juvenis, apontou meus quarenta e tantos, diagnosticou-me apenas uma paixonite, cura fácil, mais uns goles e pronto!

Foram-se garrafas, noites. O café esfriou, esperei. Um estivador qualquer, um outro suor, foi-te levada por sei lá que odor mais atrativo. Simplesmente disse adeus, dito nas entrelinhas da vidente borra que me deixavas na pia.

Sem alma, era somente coração. E estômago. Restou-me o último, a digerir, junto com petiscos e álcool, as poucas marcas de suas unhas na minha pele. Com o tempo, foi embora seu cheiro, o gosto de hortelã em meus lábios, o vigor do peito orgulhoso. Somente a bílis denunciava movimento, reclamava alguma ação. De resto, do resto, só digeria.

Vitor Hugo de Oliveira

Pouco tenho a dizer.

As palavras parecem desmentir por sua recorrência exacerbada, mas não há muito o que dizer.

Sinto que a única coisa que valeria a pena dizer, se encontra no meu estômago. Lá estão minhas alegrias e tristezas, um não-sei-o-que que me diz algo no vazio, vazio cheio de absolutos possíveis em sua incrível densidade.

Para ser mais exato, é o aleph entre duas bocas que compartilham uma respiração tântrica, é o espaço entre a mão e o corpo que toca, entre os campos negativos de seus elétrons. è o que toca, mas ao tocar, não toca, passa de um ao outro e deixa de ser apenas um e outro, mas meu corpo no outro, outro corpo no meu.

Não é silêncio; É o desespero mudo por não tocar, por não se unir, desejo sóbrio de um bêbado frente ao bar, que quer entrar... mas como?

Mas como? ? ?

?

por que? não encosta, não pego, pois se pego, não há mais eu nem nada, mas sim uma mistura eu-outro-folha-casa-pátria-mundo-fatia de pão mofada à espera de...

Àfalo

Venho aqui expressar que sinto-me castrado. Porém, a perda de um falo não resultou em uma tristeza absoluta mas, o que é pior, levou-me a um estado de depressão construtiva, bem ao gosto dos psicanalistas.

Não tenho muito tempo, tenho que buscar minha vida nos códigos monetários. Não que isso seja algo novo a mim, mas somente o peso da labuta cansa-me... retomo esses parágrafos em outro momento, nem sei quando a labuta começou a cansar-se, quando o cotidiano tornou-se hábito, mas sei que, a poucos dias de férias, sinto como se minha bexiga mental estivesse por explodir, tal como a real se comprime mais violentamente na razão direta da distância do banheiro. 

Esse era outro trecho perdido, buscando completar-se em algo mais consistente, mas que ficou pelo meio, nada mais digno de um eunuco social.

Frase perdida

O contato entre as mãos, essas membranas semipermeáveis, essa distância irremediável entre dois seres, esse fracasso da fusão entre dois corpos, é compensado pelo suor que lubrifica e imiscui as substâncias em uma área comum, de trégua e de guerra...

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Tempos de orkut

Eu, por Merleau-Ponty: Massa de carne que teima em ver sendo visto, sem saber se toco ou sinto, assaz ambíguo para me desfazer do resto do mundo. Repleto de caminhos, entraves, porquês e sentidos, meio amorfo, talvez...


Eu, por Freud: Mamãe deu mamá, limpou cocô, deu tapinha e pôs na escola. Papai ameaçou cortar meu pipi. Tudo porque nunca quis sair do grando Paraíso oceânico (demorei até pra nascer...), e porque quis matar papai, por não me deixar lá, fundido, absorto, como um simples órgão a flutuar...

Eu, por Deleuze: ?

Eu, por Murphy: Todo nascimento é o início da morte.

Eu, por mim: A grande Roda da Fortuna é uma foice que circula, corta, transforma, distorce, conforma, corrói, pergunta e pergunta e pergunta...

Definir: Limitar o Múltiplo através dos limites "precisos" da linguagem. Enumerar, prediz, reduz.
Ou seja, Mentir.

Não é convencimento meu afirmar que não posso ser definido por ser grande demais para caber num conceito. Apenas deixo claro que, entre eu e vocês não há só uma teia de indeterminadas possibilidades de sentidos e de ação (e cabe a cada um tecê-las, conforme suas vidas, sua história e seu próprio universo), mas há também a perspectiva, as visões de mundo, a probabilidade e tudo aquilo que tira o Homem do seu altar no Ser e no Eu (e, o pior, que nos tira a legitimidade de conjugá-los no "eu sou").

Assim, que o tempo passe, que os acontecimentos atualizem-se nessa corrente centrífuga que é o Agora, que cada um opine com quiser... Sendo assim, Foda-se, seja lá o que for.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Trecho: Serotoninas minhas

     Sofro, "pero no mucho". Sofro a medida dos fracos, em doses homeopáticas distribuídas durante o dia vide bula. Sofrimento fantástico, daqueles que alternam desculpas e se arremedam uns aos outros... o que se repete, sempre diferente, para não se habituar de hábitos já feitos, para diversificar a vida pública, para complementar o gozo...
     Ora, temos vergonha da felicidade mundana e gratuita, como pode-se nos dias burocráticos de hoje ser feliz por mero capricho hormonal? Há uma cota de sofrimento a ser paga, uma justificativa que valorize cada regojizo. Pago minha dívida, recolho os centavos em balas e as mastigo amargas e pungentes. Retiro o extrato bancário de meus lucros agonizantes, planejo o jogo astuto das altas e baixas do mercado, calculo milimetricamente os ganhos, e reverto as perdas em novos merecimentos.
       Capitalizar a dor, torná-la moeda negociável frente o excesso de culpa que a vida atribui aos fracos - essa administração é necessária à sobrevivência. 

     

Abaixo à flacidez!

Na respiração descompassada,

altos triglicérides, baixas serotoninas
entorpecido de concreto e aço e sol e carbono

O flácido pênis que pende do pescoço sufoca o grito
pesado da gravidade... das ações e baixas de capital
da gravidade dos obituários e cartórios,
das convenções e do peso do ouro.

Quero ser túrgido!
pegar fogo como zepellins de hidrogênio,
desbravar o cinzento metálico das alcovas burocráticas,
e encontrar a efeméride selva selvagem que se chama liberdade.

Abaixo à flacidez!

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Poema: Ainda

Em meio à dureza das normatizações, me rompem tais emoções:

Ainda

Sobre o que ainda não foi dito
sobre o que muito já se disse, se sentiu, se sofreu
preservado feito fóssil nas densas sedimentações
depositadas sobre os corações, as rugas, as lágrimas.

Muito se nasce e se resseca na fértil terra de nossas almas,
que se muito arada há de necessitar de pousios
quando as chuvas acalentam as ressequidas rachaduras
quando o Nordeste se alumia em verde flora
e exala o perfume da bela rapariga
que se apronta, que acasala, que se achega nos ombros e sopra o ouvido

Arre! os tremores da pele que brotam em pêlos hirtos
são novas florestas que nascem ao comando teu,
as mesmas que nascem... e depois morrem, e se sedimentam em palavras
no corpo nu
e fertilizam as frases de palavras desvirtuadas
e brotam em dizeres tampouco puros
e abrem valas entre os lábios
de sons não professados, ainda
.