quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Liberdade fantasmática, Igualdade hiperbólica e Fraternidade do Mesmo

Sob a égide do signo, em seu movimento infindo de deshierarquização e equalização absoluta, a diferença morre por semelhança ou contingência. Ficam de fora as disrupturas, as dissonâncias, ou seja, a emergência da Diferença enquanto tal.
 
Deleuze: positividade da diferença, Merleau-Ponty: identidade na diferença
 
Por mais que as duas abordagens se contraponham, pois uma prega que é na diferença que os elementos se imbricam e que o sujeito se coloca no mundo, enquanto a outra parte da Multiplicidade da Diferença para compreender suas reverberações frente aos jogos de forças, ambas mostram um movimento que, mesmo fundamental, permanece sombrio, permanece no gueto. Sim, ganhar o mundo, sair do armário, tornar-se acessível, tudo isso o descaracterizaria do que ele realmente é?
 
Creio pensar assim os que vêem a aplicação das normativas da Revolução Francesa hoje. Pois aquilo que chamamos de liberdade é a ínfima capacidade de ponderar frente a um jogo de forças que não é somente exterior ao sujeito, mas é seu criador. O que chamamos de igualdade tornou-se um esforço de equivaler tudo, abolir as diferenças ou aceitá-las, mas transportando-as para um regime comum de signos, de modo que todos possamos entendê-la, e assim abolir e traduzir são o mesmo. E o que sentimos como sendo fraternidade é apenas a ocultação dos horizontes do outro e a tomada da intersubjetividade sob o narcisismo de uma coesão de mesmos. Ou seja, a Alteridade se esvazia de sentido e se agrega como mais um signo do moderno.
 
Ainda há guetos, ou seja, recantos onde a diferença se manifesta plena, mas o trancafiamento no gueto é a única alternativa frente ao medo de desagregamento que acompanha o embate com a diferença. Mas, aos poucos, essa massa que é o social acaba por incorporar, por tradução sígnica ao capitalístico, um pouco dessa diferença, deixando o seu fundamental para trás.
 
Por exemplo, o movimento homossexual é agregado à sociedade no que tem de mais próximo, nas relações "estáveis", na busca por direito político, mas aquilo que fica de fora, o que transparece cada vez que o beijo gay, mero contorno de um problema inominado, vira polêmica, é o contato corpo a corpo entre dois homens, entre dois pênis, o roçar de pêlos, o ânus, o que foi soterrado por toda a terminologia da sexologia atual.
 
Outro exemplo é a necessidade social de agregar a cultura nerd, já que depende amplamente destes e do meio digital para continuar a produção de capital cultural e econômico. O "nerd", que é um subproduto dos sistemas sociais intra-escolares, torna-se agregado pelas potencialidades de consumo que introduz: há toda uma subcultura que se torna passível de consumo em massa, o que se percebe com a grande ocorrência de blocbusters tendo como tema heróis pouco conhecidos das massas. O que fica oculto é que essa inteligência-fetiche, resíduo de uma exclusão social, passa a ser objeto de uma sublimação do bullying, tal como ocorre com outras diferenças que hoje são aceitas em prol do "politicamente incorreto".
 
Em São Paulo, a força pela igualdade de direitos conseguiu abolir o "Dia do orgulho hétero", fachada ultra-direitista que se molda atualmente com a justificativa de ser vítima da supervalorização do Outro, do diferente. Uma boa vitória, mas, como acompanhei pelo jornal "Folha de São Paulo", houve um resto não explicado. Carlos Apolinário, defensor da criação do "Orgulho ao Mesmo", questiona porque é permitida a Parada do Orgulho Gay mas não a Marcha evangélica ou dos sindicalistas.  A imposição despótica da diferença é tão prejudicial quanto a imposição imperativa do Mesmo, pois estas ao menos despertam a reação da Diferença. Assim, elas não oferecem tanto risco quanto a equivalência sígnica em nome dos direitos de liberdade, igualdade e fraternidade, que mata a diferença lentamente, como um sapo cozido em fogo brando.

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