segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Noite e mundo

Nosso humor causa fibrilações no mundo noturno, rearranjando os sons e as tonalidades em um sentido de mistėrio e perigo. Mas a escuridao da noite já não nos induz a essa estruturação? A indistinção das formas, a labilidade das sombras, cria-se um espectro de mundo, que pouco nos dá. Mas aquilo que o mundo nao dá ele demanda do sujeito, e atapeta as frágeis estruturações com o dentro, com a escuridão do inconsciente perceptivo, afetivo, e toda tonalidade pessoal que ali se apresenta.
Se às claras, tudo já ganha a marca do sujeito que as observa, a escuridão revela de forma privilegiada esse mundo sedutor, que incita o sujeito por seus desejos contra sua vontade. O que era de dentro passa  vir de fora.

domingo, 6 de julho de 2014

Pai meu


Eloí, Eloí, lamá sabactani? (Marcos, 15, 34)
Pai meu
Que estás no chão
Profanado por vossas doenças
Mal vou à tua casa
Quisera eu ter minha vontade
Assim no corpo como no chão

O pão de meu sustento hoje mantenho
Perdoe-me se isso te ofende
Assim como eu perdoo o modo como tu me ofendeste


E assim, me deixe cair em tentação
Faz as pazes com o mal,
Amém

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Todos buscam sua Montanha Sagrada


Minha montanha está invertida, submersa. Como um iceberg, ela se projeta nas profundezas do Real, dos encontros retumbantes, das composições desconexas, das associações livres. Peco, sem dúvida, pela lógica sombria que me conduz ao sentido, na busca de uma frágil proteção contra as dores do mundo. O Mundo, esse grande clitóris, estimula-se até que as ondas prazerosas se rompam em pungentes dores. No Excesso do signo, goza a mente humana de sua capacidade simbólica, mas somente depara-se com a fugacidade dos poucos emblemas que consegue tornar "imortal".

Só aquele que retoma os signos, os recorta, os digere, os torna outro, consegue, com alguma serventia, sempre temporária e efêmera, realizar um encontro pleno, se é que existe alguma Plenitude.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

O coito de Narciso e Tânatos

No que diz respeito à acentuação, minha dor é proparoxítona. Não elege ditongos nem terminações específicas. Ela incide exata e errática, ignorando mesmo esse paradoxo que a funda. A dor não percorre um sistema nervoso autônomo: ela é adicta dos fatos cotidianos mesmo à luz diurna, nas microlinhas sensíveis que percorrem os fatos e as lembranças. O passado recorta a vida em fatias grosseiras e difíceis de remontar. Deixa rebarbas, remói as ossaturas, impede que façamos boas próteses para subistituir os membros perdidos.

Regojizo, se assim posso dizer, cada metafísica masoquista, que crio dando nome e substância à minha angústia. A tentativa da soberana Razão em nomear o grito surdo que rompe minha laringe e perfura meus tímpanos, inútil. A dor quintuplicada a cada conceito, que gera no sistema reflexivo redes de ressonância, propagando a dor em uma pretensa universalidade que só se refere a meu corpo obeso, pesado, que oscila lentamente frente à televisão.


Assim penso, faço neologismos do que “não tem nome nem nunca terá”... Ato de escriba bêbado, sozinho sentado no telhado, mergulhado por ralas estrelas e faróis que viram a esquina, segurando a cachaça já vazia, cujas doses pouco sanaram a desesperada pergunta feita acima do estômago dilatado.

domingo, 25 de maio de 2014

Melancholia (Lars von Trier)



Quando há vida lá fora, o melancólico tem morte dentro de si. Entretanto, quando é a morte que nos rodeia, o melancólico brilha, está sob sua luz azul natural. Já Eros, rodeado de azul, fica absorto na depressão, na angústia da finitude. Jasmine não é diferente de Claire, nem esta daquela, ambas são o que são frente ao mundo que as rodeia. O que parece falta de vida no olhar de Jasmine, no final, que nem consegue se angustiar perante a morte iminente, na verdade é a paz daquela que encontrou finalmente um mundo no qual tudo lhe faz sentido. O Nada é seu mundo, é o que dá sentido ao seu ser. Por isso Melancolia é um Planeta. O depressivo é o estado interno, a química, mas a Melancolia não está no sujeito, mas sim no redor, no ambiente, no gosto de cinza daquilo que se ama, no descolorido das coisas, e na certeza de que o fim é o que nos dá sentido.

Na física quântica, quando matéria e antimatéria se colidem, ambas se destroem, viram pura energia. Se só há vida na Terra, como previu Justine, Ela mesma se identifica com Eros, enquanto Melancolia é seu oposto, Tânatos. Desse encontro, não resta nem vida nem morte... só cinzas...

terça-feira, 15 de abril de 2014

Sursum corda


Assim, porque és morno, e nem és quente e nem frio, 
vomitar-te-ei de minha boca. (Apocalipse, 3, 16)

Em nome da Mãe, do Filho, e do Espírito Guerreiro,
forjo minha fé em fogo e água,
reitero minha sina de ser triádico.

Sou Mãe de minha mãe,
acolho em meu útero estomacal tudo aquilo que queima e arde,
vivo nas fímbrias do sentido,
sendo opaco, insosso e deletério.

A cálida mão que afaga,
com suaves dedos pune amarga,
cintila sangue por entre as linhas
que recortam a certeza do ambíguo.

Como um machado que corta em ambos lados,
divido-me feito Janus,
cada face tende a um horizonte:
o corpo padece estático,
mas o espírito reitera-se ao infinito.

Amém.


sexta-feira, 14 de março de 2014

Se tem algo que diga o que é vida, é isto

Afinal
         Alvaro de Campos (Fernando Pessoa)

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidade eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo,
E fora d'Ele há só Ele, e Tudo para Ele é pouco.

Cada alma é uma escada para Deus,
Cada alma é um corredor-Universo para Deus,
Cada alma é um rio correndo por margens de Externo
Para Deus e em Deus com um sussurro soturno.

Sursum corda! Erguei as almas! Toda a Matéria é Espírito,

Porque Matéria e Espírito são apenas nomes confusos
Dados à grande sombra que ensopa o Exterior em sonho
E funde em Noite e Mistério o Universo Excessivo!
Sursum corda! Na noite acordo, o silêncio é grande,
As coisas, de braços cruzados sobre o peito, reparam
Com uma tristeza nobre para os meus olhos abertos
Que as vê como vagos vultos noturnos na noite negra.
Sursum corda! Acordo na noite e sinto-me diverso.
Todo o Mundo com a sua forma visível do costume
Jaz no fundo dum poço e faz um ruído confuso,

Escuto-o, e no meu coração um grande pasmo soluça.

Sursum corda! ó Terra, jardim suspenso, berço
Que embala a Alma dispersa da humanidade sucessiva!
Mãe verde e florida todos os anos recente,
Todos os anos vernal, estival, outonal, hiemal,
Todos os anos celebrando às mancheias as festas de Adônis
Num rito anterior a todas as significações,
Num grande culto em tumulto pelas montanhas e os vales!
Grande coração pulsando no peito nu dos vulcões,
Grande voz acordando em cataratas e mares,
Grande bacante ébria do Movimento e da Mudança,
Em cio de vegetação e florescência rompendo
Teu próprio corpo de terra e rochas, teu corpo submisso
A tua própria vontade transtornadora e eterna!
Mãe carinhosa e unânime dos ventos, dos mares, dos prados,
Vertiginosa mãe dos vendavais e ciclones,
Mãe caprichosa que faz vegetar e secar,
Que perturba as próprias estações e confunde
Num beijo imaterial os sóis e as chuvas e os ventos!

Sursum corda! Reparo para ti e todo eu sou um hino!
Tudo em mim como um satélite da tua dinâmica intima
Volteia serpenteando, ficando como um anel
Nevoento, de sensações reminescidas e vagas,
Em torno ao teu vulto interno, túrgido e fervoroso.
Ocupa de toda a tua força e de todo o teu poder quente
Meu coração a ti aberto!
Como uma espada traspassando meu ser erguido e extático,
Intersecciona com meu sangue, com a minha pele e os meus nervos,
Teu movimento contínuo, contíguo a ti própria sempre,

Sou um monte confuso de forças cheias de infinito
Tendendo em todas as direções para todos os lados do espaço,
A Vida, essa coisa enorme, é que prende tudo e tudo une
E faz com que todas as forças que raivam dentro de mim
Não passem de mim, nem quebrem meu ser, não partam meu corpo,
Não me arremessem, como uma bomba de Espírito que estoira
Em sangue e carne e alma espiritualizados para entre as estrelas,
Para além dos sóis de outros sistemas e dos astros remotos.

Tudo o que há dentro de mim tende a voltar a ser tudo.
Tudo o que há dentro de mim tende a despejar-me no chão,
No vasto chão supremo que não está em cima nem embaixo
Mas sob as estrelas e os sóis, sob as almas e os corpos
Por uma oblíqua posse dos nossos sentidos intelectuais.

Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo e para cima,
Ascendo para todos os lados ao mesmo tempo, sou um globo
De chamas explosivas buscando Deus e queimando
A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica,
A minha inteligência limitadora e gelada.

Sou uma grande máquina movida por grandes correias
De que só vejo a parte que pega nos meus tambores,
O resto vai para além dos astros, passa para além dos sóis,
E nunca parece chegar ao tambor donde parte ...

Meu corpo é um centro dum volante estupendo e infinito
Em marcha sempre vertiginosamente em torno de si,
Cruzando-se em todas as direções com outros volantes,
Que se entrepenetram e misturam, porque isto não é no espaço
Mas não sei onde espacial de uma outra maneira-Deus.

Dentro de mim estão presos e atados ao chao
Todos os movimentos que compõem o universo,
A fúria minuciosa e dos átomos,
A fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos,
A espuma furiosa de todos os rios, que se precipitam,

A chuva com pedras atiradas de catapultas
De enormes exércitos de anões escondidos no céu.

Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio
De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh'alma.
Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia, sacode,
Freme, treme, espuma, venta, viola, explode,
Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge,
Sê com todo o meu corpo todo o universo e a vida,
Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes,
Risca com toda a minha alma todos os relâmpagos e fogos,
Sobrevive-me em minha vida em todas as direções!