quinta-feira, 19 de junho de 2014

Todos buscam sua Montanha Sagrada


Minha montanha está invertida, submersa. Como um iceberg, ela se projeta nas profundezas do Real, dos encontros retumbantes, das composições desconexas, das associações livres. Peco, sem dúvida, pela lógica sombria que me conduz ao sentido, na busca de uma frágil proteção contra as dores do mundo. O Mundo, esse grande clitóris, estimula-se até que as ondas prazerosas se rompam em pungentes dores. No Excesso do signo, goza a mente humana de sua capacidade simbólica, mas somente depara-se com a fugacidade dos poucos emblemas que consegue tornar "imortal".

Só aquele que retoma os signos, os recorta, os digere, os torna outro, consegue, com alguma serventia, sempre temporária e efêmera, realizar um encontro pleno, se é que existe alguma Plenitude.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

O coito de Narciso e Tânatos

No que diz respeito à acentuação, minha dor é proparoxítona. Não elege ditongos nem terminações específicas. Ela incide exata e errática, ignorando mesmo esse paradoxo que a funda. A dor não percorre um sistema nervoso autônomo: ela é adicta dos fatos cotidianos mesmo à luz diurna, nas microlinhas sensíveis que percorrem os fatos e as lembranças. O passado recorta a vida em fatias grosseiras e difíceis de remontar. Deixa rebarbas, remói as ossaturas, impede que façamos boas próteses para subistituir os membros perdidos.

Regojizo, se assim posso dizer, cada metafísica masoquista, que crio dando nome e substância à minha angústia. A tentativa da soberana Razão em nomear o grito surdo que rompe minha laringe e perfura meus tímpanos, inútil. A dor quintuplicada a cada conceito, que gera no sistema reflexivo redes de ressonância, propagando a dor em uma pretensa universalidade que só se refere a meu corpo obeso, pesado, que oscila lentamente frente à televisão.


Assim penso, faço neologismos do que “não tem nome nem nunca terá”... Ato de escriba bêbado, sozinho sentado no telhado, mergulhado por ralas estrelas e faróis que viram a esquina, segurando a cachaça já vazia, cujas doses pouco sanaram a desesperada pergunta feita acima do estômago dilatado.