quarta-feira, 11 de junho de 2014

O coito de Narciso e Tânatos

No que diz respeito à acentuação, minha dor é proparoxítona. Não elege ditongos nem terminações específicas. Ela incide exata e errática, ignorando mesmo esse paradoxo que a funda. A dor não percorre um sistema nervoso autônomo: ela é adicta dos fatos cotidianos mesmo à luz diurna, nas microlinhas sensíveis que percorrem os fatos e as lembranças. O passado recorta a vida em fatias grosseiras e difíceis de remontar. Deixa rebarbas, remói as ossaturas, impede que façamos boas próteses para subistituir os membros perdidos.

Regojizo, se assim posso dizer, cada metafísica masoquista, que crio dando nome e substância à minha angústia. A tentativa da soberana Razão em nomear o grito surdo que rompe minha laringe e perfura meus tímpanos, inútil. A dor quintuplicada a cada conceito, que gera no sistema reflexivo redes de ressonância, propagando a dor em uma pretensa universalidade que só se refere a meu corpo obeso, pesado, que oscila lentamente frente à televisão.


Assim penso, faço neologismos do que “não tem nome nem nunca terá”... Ato de escriba bêbado, sozinho sentado no telhado, mergulhado por ralas estrelas e faróis que viram a esquina, segurando a cachaça já vazia, cujas doses pouco sanaram a desesperada pergunta feita acima do estômago dilatado.

Nenhum comentário: