terça-feira, 27 de outubro de 2015

Carência do espírito. Tombamento da alma.

O corpo e o Verme, sozinhos, comentam cotidianamente os restos na superfície. Prazeres, o Verme proclama; e come. São saliências de sua conduta, falta de pudores. O corpo, tímido, afunda-se entre flores, protege-se com véus. Faz-se de difícil às persuasões do Verme, estando quase inebriado com seu sorriso faceiro e malandro.

Cede. Perpetram-se os antigos desejos, carcomem-se sonhos e digerem-se memórias. Sobram os cabelos, dizem, mas quanto tempo esse resistiria às vicissitudes da moda?

Enfastiado, o Verme deita-se ao lado de seus restos. Arrota satisfações fúteis, comenta do tempo, olha de soslaio o sorriso eterno que deixou estampado ao lado. Felicita-se por sua totipotência e escorrega por aí. Nem telefone, ao menos carícias matutinas. Somente rasteja-se à espera de novos apetites.


Já não nos dissecam como antigamente.

Insano é o sacerdócio o corpo.

Os olhos observam as mãos tremulantes, distanciando e aproximando, lenta e em ritmo, sob a respiração profunda. Sobrevoa o espírito, insosso, por entre delírios egocêntricos. Esse masoquismo auto-infligido, tão comum, repete-se como chibatadas que nunca cicatrizam, abrindo as costas em um novo mapa hidrográfico, que verte da nascente à foz a essência última do grito, agora já emudecido. Como goza o corpo, se caminha ao fim? Se ele mesmo apressa-se nesse caminho tortuoso de destino certo?

Não sei. Nesse solfejo de minha dor, cada inspiração e sua concomitante expiração é entoada em seu tom específico. A primeira, é marcada pela árdua tarefa do diafragma, Atlas que sustenta essa gaita de um só fole. A segunda, ganha deveras em sua melodia uma nota de alívio, mas este só reforça a frustração, a insatisfação de uma música que outorga a si própria. O ritmo lento, oscilante, conjuga-se a um timbre tímido, por entre os lábios, esmaecendo-lhes as poucas palavras que ainda lhe brotariam.

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Você se ilude com a verdade. Como em um espelho, vê uma inversão de seus erros, de suas frias batalhas, em glórias natimortas, pequenos orgulhos que lhe servem de troco no comércio cotidiano. Persegue suas listras, ara seu abdomem, semeia infusões que crescem em abaulações, quase rebentam a superfície. Éstéril, porém. Nada nasce nesta terra, a não ser uma raiz sempre interna, que se espalha e se dobra sobre si mesma, a ponto que nada mais vê que não seja a si mesmo.




Idios kosmos em expansão

Antes escrevia por ter certo orgulho narcísico de minhas palavras. No início, tais eram ainda brutas, mas almejavam o requinte dos grandes reinados absolutistas franceses. Com o fim precoce da juventude, logo situei melhor cada locução, e quanto mais minha técnica melhorava, maior era a consciência que tinha de minha ignorância. Eis aí o aprendizado socrático que tive em relação ao saber. O idiota é justamente aquele que engole um balão. Sua superfície reluz e reflete ao mundo todo sua distorcida visão da verdade. Tão cheio, tão vazio. O espaço que ocupa é tão incomensurável quanto o nada que lhe é a essência. O tempo se encarrega da entropia, espalha as partículas desse conhecimento aéreo, e por fim, com o balão cada vez mais murcho, passamos a ter mais consciência de que esse tudo que éramos nada significava. A sabedoria é, pois tão somente a ciência do vazio de nossas almas frente à plenitude do mundo.

Sartreano, não? Talvez... Meio ridículo pensar que somos meros sacos a ser preenchido de bons grãos. Mas ainda esse pensamento me fez refletir que antes era balão cheio de minha auto-nulidade, e que agora há espaço para outras formas mais brandas de vazio. Sinto que posso sentar na beirada do abismo, e contemplar a paz de meu interior ôco, a opacidade da noite de minha alma. Ela agora é capaz de responder-me, em eco, os trechos finais de minhas meditações, como se estivesse acompanhando, interessado, meus próprios pensamentos. É tanto si-a-si que chega a se esfacelar esse eu que vos fala, e as palavras, as imagens ganham vida própria, formam auroras boreais semitranslúcidas que serpenteiam por seus movimentos próprios neste céu do que era, nesse nada que tudo fui. Ao deixar de ser pleno eu, ao se afastar do nada-eu, sobra-me algo, algo este que, quase, sou.

sábado, 16 de maio de 2015

Persona - Bergman


O silêncio de alguém é a tela em branco onde inscrevem os nossas agonias. Mas isso só ocorre até o momento no qual se requer o outro.

Mas então o que restou deste, se nele depositei meu eu?

Assim, tenta-se desesperadamente incorporar novamente esse outro materno e etéreo, como aquele acariciado pelo menino no início e no fim do filme. Um eu-mundo, por onde caminho mas que nunca pode me completar. Termina-se sem eu, sem outro, sem nós, ficando somente o mar eterno, as bochechas umedecidas pelo desespero do Mundo ao qual me misturo.

sábado, 11 de abril de 2015

Physis da alma


Saturno devorando seu filho, Goya



Amarro-me atravessado na angústia, prendo-me a universos distintos que rotacionam em sentidos opostos. Cindido ao meio,  eu e eu e eu e eu e outro e outro e outro, e nada, e algo. A relatividade einsteniana é intrigante, pois seu efeito sobre a angústia é tão pungente quanto o que se dá a grandes astros. Quanto mais o peito se torna denso, maior é a distorção de meu espaço-tempo, os ponteiros se lentificam em uma eternidade por segundo, os movimentos transacionais se repelem através de um processo inflacionário que torna-me cada vez mais rarefeito.

Quem dera minh'alma comprimisse nessa dor lancinante, e que dessa singularidade um universo inteiro nascesse sob as regras quânticas de meu tédio?

domingo, 5 de abril de 2015

O fim da Valsa, de Viena e, possivelmente, do antigo freudismo

A moda agora é interromper as valsas de casamento por um novo ritual de acasalamento: primeiro, as mulheres dançam o funk das poderosas, indicando que o domínio fálico acabou. Posteriormente, os homem mostram que a única coisa que atraiu suas mulheres é o seu "lepo-lepo"... depois são esclarecidos os novos termos das relações contemporâneas, nos quais se dançam junto todas as outras formas de sexualidade, incluindo a liberação do kuduro, a relatividade dos "macho-man" fora do armário de clausura heteronormativo, e no fim, tudo o que sobre é o poder dos camaros amarelos e dos rituais capitalísticos-sexuais de dominação recíproca dos sexos sob a égide do capital.

terça-feira, 24 de março de 2015

Epitáfio a um pinguim II

Não tiveste enterro
Não terás missa de sétimo dia

                                           Ateu

Não realizaste despedidas
Não escreveste testamento

                                          Solitário

Não retornaste no terceiro dia
Não subiste aos céus

                                        Pinguins não voam
                                        Deslizam

(06/11/2009)