terça-feira, 27 de outubro de 2015

Idios kosmos em expansão

Antes escrevia por ter certo orgulho narcísico de minhas palavras. No início, tais eram ainda brutas, mas almejavam o requinte dos grandes reinados absolutistas franceses. Com o fim precoce da juventude, logo situei melhor cada locução, e quanto mais minha técnica melhorava, maior era a consciência que tinha de minha ignorância. Eis aí o aprendizado socrático que tive em relação ao saber. O idiota é justamente aquele que engole um balão. Sua superfície reluz e reflete ao mundo todo sua distorcida visão da verdade. Tão cheio, tão vazio. O espaço que ocupa é tão incomensurável quanto o nada que lhe é a essência. O tempo se encarrega da entropia, espalha as partículas desse conhecimento aéreo, e por fim, com o balão cada vez mais murcho, passamos a ter mais consciência de que esse tudo que éramos nada significava. A sabedoria é, pois tão somente a ciência do vazio de nossas almas frente à plenitude do mundo.

Sartreano, não? Talvez... Meio ridículo pensar que somos meros sacos a ser preenchido de bons grãos. Mas ainda esse pensamento me fez refletir que antes era balão cheio de minha auto-nulidade, e que agora há espaço para outras formas mais brandas de vazio. Sinto que posso sentar na beirada do abismo, e contemplar a paz de meu interior ôco, a opacidade da noite de minha alma. Ela agora é capaz de responder-me, em eco, os trechos finais de minhas meditações, como se estivesse acompanhando, interessado, meus próprios pensamentos. É tanto si-a-si que chega a se esfacelar esse eu que vos fala, e as palavras, as imagens ganham vida própria, formam auroras boreais semitranslúcidas que serpenteiam por seus movimentos próprios neste céu do que era, nesse nada que tudo fui. Ao deixar de ser pleno eu, ao se afastar do nada-eu, sobra-me algo, algo este que, quase, sou.

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