segunda-feira, 27 de junho de 2016

Papers à granel

Ciência em nosso país perdeu a cumplicidade com a criatividade. A produtividade e a confiabilidade caiu em mãos da simulação, ou seja, da tentativa de se repetir um modelo de verdade científica. Não acha que estamos ficando chatos, lisos (nós, psicólogos), perde-se espaço para a sensibilidade que sempre foi a característica-mor da Psicologia. 

Estou lendo Stendhal, "O Vermelho e o Negro". O tradutor disse que Stendhal é um antecipador das perspectivas psicológicas do final do século XIX, e mesmo Nietzsche disse que ele era avançado para sua época. Realmente, é mais que um romance, é uma visão microscópica do homem, inserido nas redes macroscópicas sociais. Deleuze estava correto em ver na literatura a nova clínica. Que tenhamos nas grandes obras as linhas de forças que afetem nossa subjetividade!

Agora me fala, quem então é mais científico? O grande analista das minúcias psicológicas, a obra literária, ou o árido texto científico, com suas metodologias cada vez mais sem sentido? 

Certo estava Lacan ao ver o quanto a palavra nos carrega por caminhos que ela mesma costura. Mais certo ainda Merleau-Ponty, ao ver na palavra a vida e o ato do corpo, ato de sentido. Falta a escrita científica psicológica recuperar a vida do texto. Os artigos são, hoje, natimortos. Não há tempo de gestação, a violência das horas adianta o tempo de amadurecimento... Mais que gestações, temos abortos constantes de parágrafos mal-formados, contaminados desde muito com a rapidez capitalista. Mas o que importa é o número de fetos, e não sua vida - todos eles serão depositados em longas prateleiras, conservados em formol, esperando que alguém necessite de novas inúteis referências para acoplar em seu feto moribundo. O Lattes é o cordão umbilical envelhecido, no qual se penduram os putrefatos produtos do coito (incestuoso) entre o burguês e o intelectual.

Baixou-me agora um Exu-Au-gosto dos Anjos!

Nenhum comentário: